quarta-feira, dezembro 05, 2007

A Inversão do Papel do Estado

Com as desculpas antecipadas ao Timoneiro e ao Ukabdsinais por ser eu a publicar aqui o que me enviaram, aqui vai:
DN 03/12/07
A INVERSÃO DO PAPEL DO ESTADOJoão César das Neves, professor universitário
O futuro terá muita dificuldade em entender a nossa obsessão com o Estado. Esta é a época que mais teoriza sobre o papel das autoridades, onde os poderes públicos mais se esforçam por melhorar a vida dos cidadãos, mas onde existe a maior confusão, atropelo e ambiguidade nesses mesmos poderes. O Estado não faz o que deve e anda a meter-se onde não é chamado. Assistimos nos últimos tempos a um recuo evidente do Governo nas suas funções básicas. Ao mesmo tempo há funcionários, fiscais e técnicos a invadir a intimidade dos cidadãos em nome da segurança e bem-estar. Se isto continua em breve teremos uma inversão total da estrutura institucional.O mais surpreendente é que muitas mudanças básicas acontecem, não por razões ideológicas, de forma planeada ou segundo análises fundamentadas, mas por mero deslize. São consequências laterais de tácticas oportunistas, expedientes patetas ou golpes de conveniência. A tacanhez política está a ter efeitos radicais que dificilmente serão corrigidos.O recuo do Estado nas suas funções próprias é bastante evidente. Desesperado pelo défice, o Governo perde de vista o seu papel. A fúria de privatização há muito deixou de ter propósitos estruturais, para se tornar mero instrumento financeiro. Privatiza-se não o que se deve, mas o que rende. Como as corporações capturaram as funções que deveriam exercer, cada ministério trata mais de reivindicações de profissionais que do seu serviço ao povo.Um recente caso escandaloso é o das Estradas de Portugal. Entregou-se a uma sociedade anónima uma função essencial do Estado, a liberdade de circulação, pois estradas abertas constituem um direito fundamental de cidadania. Qual a razão? A bomba de relógio financeira das SCUT, criada na ilusão de obter dinheiro privado para infra-estruturas, está a explodir. Por isso entrou-se numa fuga para a frente, generalizando a abordagem. Quando o primeiro-ministro afirmou em 16 de Novembro que a nova empresa tem por objectivo a "sustentabilidade financeira", ele sabe que isso só será possível com uma qualquer forma sofisticada dos antigos bandoleiros dos atalhos.Enquanto aliena funções fundamentais, a sempre crescente máquina estatal atarefa-se a tratar da violência doméstica, inovação tecnológica, galheteiros nos restaurantes, embalagens de brinquedos. Proíbe o fumo, o ruído e o excesso de velocidade, promove o aborto e facilita o divórcio. Dizemos ser um país livre, mas é impossível a matança do porco, brindes no bolo-rei, ou termómetros de mercúrio.Tudo isto no meio de uma fúria legislativa, onde novas versões de diplomas surgem antes de secar a tinta nas anteriores. Um exemplo sugestivo, já que se fala de trânsito, é o Código da Estrada. O Estado, que se demite da gestão rodoviária, está cada vez mais enfiado com o condutor ao volante. Como andar de automóvel não muda há décadas, seria de esperar estabilidade nessa legislação fundamental que afecta toda a população. Pelo contrário, esse campo é um emaranhado de diplomas.Referindo apenas os principais, tínhamos um código, aprovado pelo Decreto-Lei n.º 114/94, de 3 de Maio, que foi depois revisto e republicado pelos DL 2/98, de 3/1, e 265-A/ 2001, de 28/9, e alterado pela Lei 20/2002, de 21/8. Então o Governo decidiu criar um novo Código, que aprovou pelo DL 44/2005, de 23/02. Desde então, nestes dois anos já foram publicados 26 novos diplomas que o complementam, corrigem e acrescentam. São quatro leis, cinco decretos-leis, dois decretos regulamentares, seis portarias e nove despachos. O site da Autoridade Nacional de Segurança Rodoviária, na secção Trânsito, tem um total de 46 diplomas que devemos conhecer cada vez que entramos num carro.O mais incrível é que os responsáveis não se dão conta de que esta profusão legislativa apenas manifesta a sua tolice, impotência e incapacidade. O Estado tornou-se uma galinha tonta, a correr em todos os sentidos. As gerações futuras vão divertir-se com este tempo infantil que acha que a lei resolve tudo mas não consegue decidir qual lei o deve fazer.

Resposta do Ukabdsinais:
Não posso deixar de dizer isto:

Este senhor César das Neves é um dos mais acérrimos fundamentalistas católicos que existem nesta merda de país. No referendo ao aborto deu a cara pelo não com
argumentos tais como genocídio de criancinhas, quem abortar vai para o inferno e coisas assim. Além disso pertenceu a um dos governos do Cavaco.
Não sei nem me interessa se esta alimária é ou não um reputado economista ou se tem ou não razão, neste caso, naquilo que escreve. Se calhar até tem.
Mas não consigo evitar enviar este aborto para a puta que o pariu mais o caralho que o foda.

Pronto, já disse.

E a minha verborreia:
Além de subscrever totalmente as palavras do Ukabdsinais, atrevo-me a dizer mais:

Na história muito recente deste povo que habita o planeta Terra, talvez não mais de há 50 anos para cá, o que alguns pensadores mais esclarecidos já tinham avisado antecipadamente está a acontecer a olhos vistos. Trata-se da apropriação das mentalidades por parte dos poderes internacionais, quer sejam financeiros, económicos ou políticos. Apropriação esta que, sendo subtil, inteligente, focando a sua matriz no mais humano dos sentimentos de querer o dia de amanhã melhor do que hoje, de forma concertada e organizada criam o desejo de consumir o inútil e desnecessário como um meio de vida, como um objectivo individual de satisfação virtual no caminho da almejada felicidade.
A pessoa deixou de ser humana, com diferentes formas de estar e escolhas diversas, para passar a ser um objecto puro do consumo, de viver em função das poderosas máquinas de marketing publicitário, não lhe podendo escapar a não ser que se assuma como marginal, como minoritário, como permanente lutador contra esses poderes instituídos, onde a regulação e as normas se impõem fortes, indestrutíveis perante o binómio custo/benefício.
Apenas alguns, poucos no meio dos mais de 6 biliões de seres vivos dos quais apenas 2 biliões vivem com mais de 2 dolares por dia, têm capacidade para compreender o que se passa, pois os acontecimentos e as trapaceiras são mais velozes do que o tempo necessário para entendê-las, daí a mais simples das formas encontradas pela maioria de se submeter, sem apelo nem agravo, à apatia, ao não vale a pena individual, ao encolher de ombros. Antigamente esta função, ao nível das mentes, era similarmente efectuada pelas religiões no mundo, embora ainda hajam vários cantos do mundo onde tal acontece. Actualmente, neste tempo moderno, os deuses passaram a ser os donos financeiros e económicos. Nos países ditos mais evoluídos, o deus passou a ser o poderoso humano que tem rosto, a religião passou a ser o mercado do consumo e a água benta tem o nome de dinheiro.
E nascem como tordos os arautos destes atributos, a quem lhes dão o acesso aos meios de comunicação para espalharem a sua fé, a maior parte das vezes de uma forma subtil, encapotada, até dando uma ideia de que são muito humanos e só querem o bem comum, utilizando toda a sua mente prevertida para, ora apregoando uma coisa ora bradando o inverso uns tempos mais tarde, confundir a maioria pouco esclarecida que, na sua pobre inteligência de pão-de-ló, se deixa embalar na cantiga do bandido.
É o caso, de entre muitos que por aí há, deste tal badamerda César das Neves, cujo passado de vida é suficiente para que não lhe possamos dar a mínima oportunidade de estar de acordo com ele, nem que ele afirme que a terra é redonda, o dia tem 24 horas, 2 mais 2 são 4 ou a Fabiana faz o melhor broche do mundo!
Qualquer verdade vinda de malandros assim é pura especulação demagógica. E até são professores!!!

Agradeço ao Timoneiro a atenção prestada por enviar o texto e ao Ukabdsinais por me ter espicaçado as entranhas para esta breve reflexão que convosco quero partilhar.

2º remador

Nota: Sugiro aos meus amigos a leitura do livro saído este ano do Fernando Pereira Marques, "Esboço de um programa para os trabalhos das novas gerações", título que o autor foi retirar a uma obra do Antero de Quental.

ÒH SANTA INFORMÁTICA!

Pois é. Passados vários meses em que não consegui meter aqui umas colheradas, eis que, òh deuses do Olimpo, finalmente parece que estes se apaziguaram e me permitiram voltar a vomitar nesta gloriosa folha as entranhas do meu sentir.
É evidente que vocês, os que têm a infelicidade de aqui vir parar, escusam de vociferar que isto estava tão bem sem as minhas parvoices, pois acabou esse estado de calma em que repousavam. E acreditem que a culpa não é minha, pois só com a inestimável ajuda do tripulante ukabdesinais tal é possível.
Mas tive que suar que nem um texugo para aqui chegar. Foram meses de árduas tentativas, seguindo as instruções que me eram dadas. Mas isto da informática é só para mentes superiores, e um réles ser como eu, não havia meio de o conseguir.
No meio de nomes de utilizador (username...muito fino, muito in, muito american..) e senhas (password.....mais uma fineza, muito informático, muito in, na onda da modernice, bué de yuppi american boy), de instruções de caminhos a seguir (tudo em american, como é apanágio do mundo informático global.....sim, esta é face mais visível da globalidade imperial da criação amerdicana) onde sempre faltava um pequeno senão, de vários computadores partidos em desespero, de sessões contínuas de terapia de grupo, depois de rever vezes sem conta o discurso do Hugo Chavez onde apregoa que vai alterar a hora oficial da Venezuela em menos meia hora, eis que consegui. Devia gritar "eureka", mas não, por respeito ao seu editor.
De facto isto da informática, mesmo o que parece mais simples, é para mentes superiores dotadas de uma inteligência magnânine. Mas com sacrifício parece-me que já consigo publicar aqui umas merdas de vez em quando.
Vamos a ver se a minha sanidade mental ainda o permite!

quarta-feira, novembro 21, 2007

Leituras ao serão

A avó Urzelina, que já perdeu a conta aos anos mas que se bate ainda com uma boa feijoada a seguir a hora e meia de jogging diário, que lê os artigos de opinião do Pacheco Pereira, que gaba a nova dentadura do Paulo Portas e não perde pitada dos discursos do ministro Mário Lino, e que ainda tem tempo para gravar todas as telenovelas da TVI enquanto vê as da SIC, perdeu de repente as estribeiras e desatou aos tiros pela casa fora com a caçadeira que o avô lhe deixara antes de se refugiar em Vladivostok. “Fónix!, como é que uma fulana consegue aguentar isto?”, berrava a avó enquanto despejava mais uns cartuxos na direcção do gato Romeu que fugiu para a cave. Fiquei ali na dúvida se haveria de chamar o 112 ou avisar a prima Ossétia que estava de serviço na travessa do Deboche como é costume, mas por sorte os cartuchos esgotaram-se e a avó Urzelina desatou a partir o serviço de porcelana chinesa que o Presidente lhe tinha oferecido com a coronha da caçadeira. Depois do serviço feito em cacos e a caçadeira partida, a avó sentou-se ofegante na cadeira de balanço, e pediu-me um havano e uma dose generosa de tequila para acalmar.
Chegada a bonança, e por entre novelos de fumo do charuto e goles de tequila, a avó lá se abriu comigo, coisa rara nos tempos que correm. “Tédio, meu filho, tédio, nada mais que tédio. Já não consigo divertir-me com o Mário Lino, nem com os dentes do Portas, nem com as intelectualices do Pacheco Pereira, as telenovelas já são todas cópias umas das outras, o jogging deixa-me cansada e a feijoada provoca-me gases. Tédio, é só tédio.” Confesso que nunca tinha visto a avó naquele estado, e embora tenha tentado animá-la aconselhando-a a mudar as directrizes do seu gosto pessoal, por exemplo, trocar o Mário Lino pelo Van Zeller, o Portas pelo Castelo Branco, o Pacheco pelo Pedro Arroja, o jogging pelo kick-boxing, a feijoada por crepes chineses, e as telenovelas pelo Marcelo, a avó Urzelina recusou e foi ficando cada vez mais deprimida a cada sugestão minha.
Eis senão quando entra por ali adentro o Elias, angariador de militantes partidários em part-time e agente-secreto do patriarcado, empurrando um carrinho de supermercado atulhado até acima de resmas de folhas A4. Deixou-se cair ofegante na única cadeira disponível e falou para a avó: “Trago aqui 63500 cópias de documentos do Ministério da Defesa. Não me façam perguntas que eu também não sei responder. Com os cumprimentos de PP.” E saiu tal como tinha entrado: pela porta.
Agora as coisas voltaram ao normal. A avó largou a depressão num canto escuro, e passa agora os dias a ler as cópias do Ministério. Por vezes eu e a prima Ossétia ficamos ao serão a ouvir a avó ler em voz alta documentos altamente confidenciais e entre compras de submarinos usados que só submergem, petrodólares por debaixo da mesa, férias de luxo no Dubai, negócios de armas e diamantes, e até orientações sexuais de alguns líderes mundiais, por vezes não conseguimos conter as gargalhadas e até o gato Romeu ostenta aquele ar misterioso sempre que o serão se prolonga. Até a prima Ossétia está mais caseira e já me olha com aquele olhar que me arrepelava os cabelos da nuca antes de trabalhar na rua do Deboche.

quarta-feira, novembro 14, 2007

Poesia para os distraídos

No primeiro diploma,
Congelam as progressões,
Acabam os escalões,
E não dizemos nada.

No segundo diploma,
Aumentam o tempo das reformas,
Mexem com todas as normas,
E não dizemos nada.

No terceiro diploma,
Alteram o sistema de saúde,
Há um controlo amiúde,
E não dizemos nada.

No quarto diploma,
Criam-se informações,
Geram-se várias divisões,
E não dizemos nada.

No quinto diploma,
Passa a haver segredo,
As pessoas vivem com medo,
E não dizemos nada.

Até que um dia,
O emprego já não é nosso,
Tiram-nos a carne fica o osso,
E já não podemos dizer nada.

Porque a luta não foi travada,
A revolta foi dominada,
E a garganta está amordaçada.

(de autor anónimo)

segunda-feira, novembro 12, 2007

Segundas-feiras

Às segundas-feiras acordava com a sensação do incompleto. Alguma coisa faltava para que este dia fosse tão feliz como o sábado ou o domingo, ou, porque não, as tardes de sexta-feira. Levantava-me com alguma dificuldade e sono adiado e dirigia-me rastejante à casa de banho. Invariávelmente o espelho devolvia a imagem de um ser distorcido, repelente, um verme esponjoso ou insecto quitinoso saído de alguma metamorfose de Kafka. Nem a higiene matinal, por muito que esfregasse, escovasse, rapasse ou lavasse, conseguia devolver a minha vulgar aparência humana. E acontecia sempre às segundas-feiras. Às segundas-feiras a comida não tinha gosto, os sapatos não tinham graxa, as calças não tinham vinco, as camisas não tinham goma, o telemóvel não tinha rede.
Ia para o trabalho sonolento, ao volante do meu Bentley em quinta mão, único sobrevivente de heranças passadas para além do gato empalhado do avô. Gramava uma hora e meia de fila de trânsito, tal qual um carreiro de formigas parado e sem destino visível até deparar com o formigueiro fruto de depressões e abusos de poder. Os outros vermes e insectos (às segundas-feiras não era o único, felizmente) lá se distribuíam pelos buracos, ninhos, colmeias e até folhas de couve apodrecidas.
Mas o pior era aturar o Escorpião. O bicho tinha um feitio terrível, dava-se de ares e ameaçava tudo e todos com uma ferroada certeira. Por causa dele a Umbelina estava em estado vegetativo há dois meses, o Aniceto uivava à lua e o Remualdo afiava a faca de cozinha na pedra de amolar com o olhar assassino cortado pelas fagulhas, jurando vingança. De quê não sei.

Foi assim até ao dia do discurso. Por acaso a uma segunda-feira. O Presidente falou, e falou, e falou sem parar durante dezoito horas seguidas, e ao culminar as dezassete horas e cinquenta e nove minutos o Escorpião suicidou-se, autoferroando-se. De imediato a Umbelina passou de vegetal a animal, o Aniceto largou a atitude canina, o Remualdo guardou a faca de cozinha. Todos os seres repelentes entre os quais eu me incluía voltaram a ser os vulgares humanos de todos os dias excepto às segundas-feiras. O Presidente foi reeleito e com direito a estátua na Avenida Principal. O seu 1º decreto foi para revogar oficialmente as segundas-feiras do calendário.
Não sei porquê, mas agora tenho a sensação de que todos os dias são segunda-feira...

sexta-feira, novembro 09, 2007

Uma vida saudável

O Timoneiro apresenta mais um estudo altamente científico sobre as dificuldades de uma vida totalmente saudável. Não se sabe quem é o autor, mas é pouco provável que ele leia este blog, portanto...

Dizem que todos os dias temos que comer uma maçã para o ferro e uma banana para o potássio.

Também uma laranja, para a vitamina C, meio melão para melhorar a digestão e uma chávena de chá verde sem açúcar para prevenir a diabetes.Todos os dias temos que beber dois litros de água (sim, e logo a seguir mijá-los, que leva quase o dobro do tempo que se leva a beber).

Todos os dias temos que tomar um Activia ou um iogurte para ter 'L. Cassei Defensis', que ninguém sabe exactamente que merda é, mas parece que se ingerir um milhão e meio todos os dias começa-se a ver toda a gente com uma grande diarreia ou presos dos intestinos.

Cada dia uma aspirina, para prevenir os enfartes mais um copo de vinho tinto, para a mesma coisa. E outro de vinho branco, para o sistema nervoso. E um de cerveja, que já não me lembro para que era.

Se os tomarmos todos juntos mesmo que aconteça um derrame cerebral ali mesmo não nos
devemos preocupar pois o mais certo é que nem daremos conta disso.

Todos os dias temos que comer fibras. Muita, muitíssima fibra até que sejamos capazes de defecar uma camisolona bem grossa.

Temos que fazer quatro a seis refeições diárias leves sem esquecer de mastigar cem vezes cada garfada.

Ora, fazendo um pequeno cálculo apenas a comer vão-se assim de repente umas cinco horitas.Ah, depois de cada refeição deve-se escovar bem os dentes, ou seja:

depois do Activia e da fibra os dentes depois da maçã os dentes depois da banana os dentes e assim enquanto tivermos dentes, sem esquecer nunca de passar o fio dental massajador das gengivas e bochechar com PLAX...
Melhor, amplifica-se a casa de banho e põe-se a aparelhagem de música lá porque entre a água, a fibra, e os dentes vamos passar horas ali dentro, ou seja, quase metade do dia.
Equipa-se também de jornais e revistas para nos pormos a par do que se passa enquanto sentados na sanita.

Se temos que dormir oito horas e trabalhar outras oito, mais as cinco que usamos a comer, faz vinte e uma.
Restam três horas sempre que não surja algum imprevisto.
Segundo as estatísticas, vemos três horas de televisão diárias.
Bem, já não se pode porque todos os dias devemos caminhar pelo menos uma meia hora (dado por experiência: ao fim de 15 minutos é melhor para senão anda-se mas é uma hora!).
E há que cuidar das amizades porque são como uma planta: temos que as regar diariamente.
E quando vamos de férias também senão as plantas morrem.
Para além disso há que estar bem informado e ler pelo menos um dos jornais diários e outro de uma revista séria para comparar a informação.

Ah! E temos que ter sexo todos os dias mas sem caír na rotina: temos que ser inovadores, criativos, renovar a sedução.
Isso leva o seu tempo. E já nem estamos a falar do sexo tântrico!! ( A respeito disso, relembro: depois de cada refeição temos que escovar os dentes!)
Também temos que arranjar tempo para a maquilhagem, a depilação/fazer a barba, varrer a casa, lavar a roupa, lavar os pratos e já nem digo, os que têm gatos, cães pássaros e uma catrefada de filhos...

No total, a mim dá-me umas 29 horas diárias se nunca parar.
A única possibilidade que me ocorre é fazer várias destas coisas ao mesmo tempo: por exemplo, tomar duche com água fria e com a boca aberta, e assim beber logo os dois litros de água de uma vez.
Enquanto saímos do banho com a escova de dentes na boca, vamos fazendo o amor, o sexo tântrico, parado, junto ao nossa/o mais que tudo, que de passagem vê TV e vai contando o que se passa, enquanto varremos a casa.
Sobrou uma mão livre?
Telefona-se aos amigos e aos pais!
Bebe-se o vinho (depois de telefonar aos pais vai fazer falta!).
O iogurte com a maçã pode ser dado pelo par enquanto come a banana com a Activia.
No dia seguinte troquem.
E menos mal que já crescemos, porque senão tínhamos que engolir mais umas cerelacs e um Danoninho Extra Cálcio todos os santos dias.
Úuuuf!

E agora vou acabar porque entre o iogurte, o meio melão o primeiro litro de água e a terceira refeição do dia já não faço a mínima ideia o que é que estou a fazer porque preciso urgentemente de uma casa de banho.
Ah, vou aproveitar e levo comigo a escova de dentes...

terça-feira, outubro 23, 2007

A tasca estava à cunha


A tasca estava à cunha, eram ao todo 27 clientes. O gerente e o anfitrião distribuíram a ementa, recolheram os pedidos, e quando fizeram a contagem faltavam dois pratos: o italiano e o polaco não tinham pedido nada. O gerente reclamou que assim não podia ser, o anfitrião aproveitou para fazer jogging à volta do quarteirão, o polaco fechou-se em copas, o italiano abriu-se em paus. Em coro pediram o livro de reclamações. O gerente interrompeu o jogging do anfitrião a meio da 5ª volta, e manifestou a sua preocupação: - E a ASAE? Se a ASAE aparece por aí?
O anfitrião aconselhou calma, despiu o fato de treino, tomou um duche frio, perfumou-se discretamente, treinou o seu melhor sorriso em frente ao espelho, e entrou na sala resplandecente. O italiano queria uma pizza que não estava no menu, o polaco só comeria se pudesse sentar-se entre o cliente francês e a cliente alemã. Depois de dolorosas negociações, algumas escaramuças, uns tantos sopapos e uns copos de vodka a coisa ficou assim:
o polaco aceitou ficar ao lado da cliente alemã e do cliente espanhol, que assim teve de ceder a sua posição. O gerente, sempre zeloso, propôs que se juntasse mais outra mesa. O italiano viu a sua pizza ser incluída no menu, embora não pudesse levar pimentos por causa das digestões difíceis.
Finalmente toda a gente pareceu satisfeita: o francês deixou escapar um “enfin, c’est la vie!”, o inglês suspirou “shame on you!”, a alemã pregou “mein gott!”, o espanhol cantou “Olé!”, o anfitrião deixou escapar um “porreiro, pá!”, ao que o gerente respondeu “bué, meu!”.
Depois do repasto e dos brindes da praxe, a conta foi enviada aos duzentos mil manifestantes que aguardavam lá fora.
“Fooooda-se...!”, exclamaram todos em coro afinado.

sexta-feira, outubro 19, 2007

Do Sebastião e afins

Andava eu em ameno passeio de metro à hora de ponta quando dou com o Sebastião na gare de Sperm Station encostado a um anúncio luminoso de caviar sudanês. Ali estava ele, impávido, a ver passar os comboios. Estava mais magro, mais bronzeado, e impecávelmente vestido com um fato cinzento Vito Corleone com camisa e gravata a condizer. Cumprimentei-o efusivamente tendo em conta as noites perdidas no passado em fados e guitarradas, mas o tipo retribuiu com a frieza própria dos gajos importantes que subiram na vida fazendo dos outros degraus. Estranhei esta atitude, pois o Sebastião não era nada dado a estas merdas, era até humilde e pacato, quiçá brando,como é vulgar cá no burgo. Apesar da gelada recepção convidei-o a tomar um copo em memória do passado ao que ele aceitou na condição de ser ele a escolher o local. E lá fomos ao Barroso´s, bar da moda entre opinadores de economia&finanças e acompanhantes de alterne. Confesso que nunca ali tinha entrado, e quando deparo com meninos imberbes e borbulhentos com cabelinho à mete nojo e saco de ténis a tiracolo, rodeados de fulanas podres de boas e pobres de espírito, mais uns tipos com pinta de doutores na reforma com o cabelo cinzento enrolado por cima da gola da camisa para disfarçar a ausência na parte de cima, pensei logo em ir embora, mas já o Sebastião penetrava num grupo heterógeneo de espécimens já descritos e se exibia entre apertos de mão, sorrisos Colgate e apalpões de mamas. Apresentou-me como Fulano de Tal, conhecido de longa data, e insigne representante dessa classe indistinta e distante conhecida como povo. Reparei na curiosidade entremeada de alguma repulsa pela minha indumentária comprada na feira de Carcavelos, pela minha barba mal feita, pelos meus óculos escuros made in China. Apenas duas das tais podres de boas se acercaram de mim enfiando os braços nos meus, e perguntando com voz melosa o que eu iria beber. Pedi guaguejando uma imperial, mas não mencionei cautelosamente os tremoços pois naquele ambiente poderia dar para o torto. Enquanto isso o Sebastião parecia mais divertido, segredando inconfidências com os outros figurantes enquanto olhava para mim com ar de gozo. A um sinal do Sebastião as tipas soltaram-me de repente quando eu já estava a ficar com cócegas no escroto, o tipo obriga-me a sentar a um canto recatado do balcão onde o barman nos serve as bebidas, a minha imperial e uisque de malte para o Sebastião. Confesso que não aprovei a troca, a coisa prometia uma tarde bem passada em triunvirato, mas senti uma ponta de curiosidade pelo que viria a seguir. E vai daí o Sebastião desbobina toda a história, desde os tempos de caloiro na Faculdade Oportunista. Aí conhecera um aprendiz de mercenário, que é como se designam os estudantes desta Faculdade, um gajo bem encostado politicamente e bem colocado no top-ten dos melhores alunos. Privou com ele, engraxou-lhe os sapatos, sacudiu-lhe o pó, lavou-lhe o Mercedes quando o homem se fez ministro, apoiou-o à chefia do partido. Depois o tipo baldou-se sem água vai nem água vem e o Sebastião ficou desempregado. Ainda assim continuou a frequentar os meandros do poder e do oportunismo, e graças a isso e ao seu charme particular conseguira um lugar privilegiado como observador de comboios em horas ponta. O mais chato, segundo ele, era elaborar relatórios constantes sobre as idas e vindas, movimentos de passageiros, conversas ao acaso, enfim, um inquérito silencioso à classe popular. E vai daí propõe-me um emprego como seu assessor, ou seja, eu ficaria a ver passar os comboios e a fazer relatórios enquanto ele teria assim mais tempo para se dedicar às suas exigências sociais, com e sem acompanhantes. Apesar do ordenado ser substancialmente superior à minha pobre pensão de incapacidade para o trabalho (sofro de preguiça crónica e bocejo matinal faseado) recusei a proposta, e depois de algumas insistências da parte dele, e de mais umas quantas imperiais, e de mais promessas de contrapartidas e gajas boas uma vez por mês, levantei-me, voltei-lhe as costas e deixei-o a falar sózinho.
Agora sei que o Sebastião trabalha como moço de recados em cimeiras europeias, assim uma espécie de correio de telepizzas para divorciadas debochadas e solteironas atípicas. Não o tornei a ver nem ele tentou contactar-me. É pena, fiquei com saudades de o deixar a falar sózinho.

25 de Abril? Fónix...!



Envia o Timoneiro esta pérola da cultura portuguesa sobre o 25 de Abril.
Realmente, há povos que só têm o que merecem.

segunda-feira, outubro 15, 2007

Isto anda muito às moscas

mas a realidade é que por aqui há uma epidemia de prisão de ventre. Aceitam-se fibras, mézinhas e laxantes. Nada de clistéres. Para isso já temos o Sócrates e os novos genéricos do PSD. Mas esses não entram na farmácia cá da casa. Antes de saírem para o mercado já estão fora de prazo.

sexta-feira, setembro 28, 2007

1, 2, 3, teste, teste

É só para ver se consigo entrar :-))

sexta-feira, setembro 14, 2007

O Caos aqui tão perto

Os falas-barato opinam pela duocentésima quinta vez sobre o caso Mcann, atacam ali, defendem acolá, prevêem isto, desculpam-se com aquilo, falam, gesticulam, atacam, interrogam, condenam. A puta da TV esfrega as mãos de contentamento, e vai contando os euros que vai ganhando com as elevadas audições sobre o suposto rapto/homicídio. A turba/rebanho/manada do costume (ou seja 99,9999% de portugueses) ouve, digere, rejubila, opina, espiolha, condena. Mas eis que um facto novo surge no meio do bordel: Scolari agride/não agride/acaricia um sérvio no final do Portugal 1-Sérvia 1. A turba esquece por momentos o ursinho de peluche da Maddie e concentra-se no punho erguido do Felipão. Os falas-barato viram o azimute e opinam, baralham, descontam, recuam e voltam atrás, avançam e descaiem. O suposto agressor desculpa-se, está sereno, aguarda o castigo com tranquilidade e reza à senhora do Caravaggio para que o chorudo cheque não se atrase no fim do mês. Os Mcann querem novas análises ao carro por um laboratório independente, Scolari diz que não agrediu o sérvio, que só queria proteger o Quaresma que estava a cinco quilómetros da cena, os cães que cheiram cadáveres andaram a cheirar na igreja e quiçá, também no cemitério(!) da Luz, a judite é uma polícia competente ou é dirigida por atrasados mentais com tendências masoquistas, a Scotland Yard parece que quer investigar se o murro que o Scolari deu, não foi ele, se calhar fui eu, a UEFA já fez todos os testes de ADN ao árbitro do encontro e supostamente irá concluir que a pequena Maddie foi raptada por um extra-terrestre sérvio enquanto os pais enviavam mensagens telepáticas ao Scolari para o convencer a partir as fuças ao tipo e esperar que o Madaíl receba a sua parte do fundo Madeleine Mcann para despedir o treinador com uma choruda indeminização e contratar o Dalai-Lama para seleccionador nacional. Os falas-barato já têm aqui matéria para dar e vender. A turba espera impaciente pelas cenas dos próximos capítulos enquanto contrai mais um empréstimo à Cofidis e adia o suicídio até ler a 1ª página do 24 Horas ou pelo menos até ao próximo jogo da selecção.

quarta-feira, setembro 12, 2007

Joe Zawinul



Esteve com Cannonbal, com Miles Davis no advento do jazz eléctrico, com Wayne Shorter fundou os Weather Report. Era um nome incontornável do chamado jazz de fusão.
Faleceu hoje com 75 anos.

segunda-feira, setembro 10, 2007

Cenas dos próximos episódios

Agora que o caso Maddie começava a tornar-se interessante, com o pessoal em vias de lançar os pais da pequena para a fogueira, é que estes regressam à querida pátria, o couto de Sua Majestade. Eu percebo, estes ingleses andam mordidinhos de inveja da nossa comunicação social que inventa cabalas e teorias da conspiração todos os dias, capazes de concorrer com os intrincados enredos policiais de Agatha Christie ou Ruth Rendell, com especialistas na matéria a botarem opiniões nas TV´s, quais Poirot´s armados em Marcelos. Ao mesmo tempo percebo os media ingleses: só eles e mais ninguém podem construir argumentos de perfeito nonsense estilo Little Britain, e nunca, mesmo nunca, deixar esse privilégio para sulistas imundos que apenas servem para lhes limpar as sanitas e servir-lhes o sol de bandeja a preços de saldo.
Vamos esperar pelos próximos capítulos, desta vez em inglês com legendas em português em que os maus da fita serão agora os investigadores da judiciária, e, por tabela, essa turba de desgraçados que tanto chora a má sorte da pequena Maddie, como quase atira pedras sofre os seus paizinhos endinheirados.
A verdade, se é que ela existe, tem fortes possibilidades de continuar bem escondida.

sexta-feira, setembro 07, 2007

História do Futuro

Estudos recentes indicam que a manter-se o actual número de nascimentos em Portugal a renovação das gerações estaria posta em causa. Ou seja, caminhamos a passos largos para desaparecermos do mapa, o que, diga-se de passagem, o resto do mundo nem sequer irá dar por isso.
Quem disse que os portugueses não têm objectivos concretos e inteligentes, que só vivem embalados pela sra de Fátima, pela telenovela, pelo futebol e pelo telemóvel? Finalmente estamos todos unidos num objectivo concreto, que irá transformar o nosso futuro num amanhã radioso: a auto-extinção.
Qual choque tecnológico, qual quê!