segunda-feira, dezembro 10, 2007

A Cimeira



É assim:
Primeiro o pessoal faz-se ao mar à procura do sustento que não tem em terra, leva chicotada, morre de escorbuto, afoga-se, apanha com o Adamastor que não tem culpa nenhuma, nem ele nem o Camões, é promovido a herói à conta das companhias das Índias e da sacrossanta igreja católica que, à força, engorda o seu séquito de convertidos e cristãos novos, deixa por lá alguns escravos brancos à conta de uns tantos senhores, trás para cá alguns escravos pretos à conta dos mesmos senhores, cria um suposto império de Lisboa às Molucas, atafulha naus remendadas com especiarias que vende a preço de ouro nas praças europeias, os senhores ricos ficam mais ricos, os pobres ficam, como é normal, mais pobres. Depois vêm espanhóis sequiosos de ouro, ingleses, holandeses e franceses especialistas em pirataria, e temos o baile armado. Passam séculos e a rapina continua,, uns com sucesso outros a fingir à conta de alguns massacres e uns tantos extermínios. Depois a rapaziada de lá farta-se da festa, encontra alguns aliados pouco recomendáveis, e com muito sangue e muita luta obrigam o europeu a refugiar-se na latrina de onde nunca devia ter saído. E os novos senhores substituem os antigos, mas desta vez bem encapotados por sobas autóctones. O festim continua e o baile continua armado. Com mais ou menos massacre, mais ou menos extermínio, o preto faz-se ao mar à procura do eldorado que pensa existir lá mais para o norte na terra da gente branca. E agora são eles que se afogam e morrem de fome e frio, sem qualquer valor épico ou um Camões que lhes cante os feitos.
Depois os tais ditos senhores (os de sempre, per seculum seculorum) incham de boas intenções, escondem a hipocrisia no teatro dos salamaleques, e recebem os sobas supostamente de peito aberto e com a factura das metralhadoras no bolso das calças.
As austeras esposas dos sobas aproveitam a deixa e engordam o enxoval com a lingerie das casas da moda, enquanto os maridos aproveitam as migalhas do festim enquanto ele durar.
Depois volta tudo ao mesmo, apesar dos pregões de sucesso, das mentiras disfarçadas de falsas esperanças, dos brindes de veneno e da fotografia de grupo, como um casamento que se sabe à partida mal sucedido.
Havemos de nos encontrar um dia, quando o homem regredir finalmente para primata
e não houver nem mais uma migalha para disputar ou roubar.
Nessa altura ficará tudo mais evidente.

domingo, dezembro 09, 2007

CIMEIRA UE-ÁFRICA EM LISBOA

Acabou a cimeira UE-África. Que pena!
Que pena tenho, pois não é que o meu tv deu o prego há dias e o rádio não tem pilhas, e amanhã já teria condições para acompanhar os discursos dos chefes de estado onde, por certo, os da europa, com o Sócrates e o Cavaco incluídos, teriam gritado bem alto que são os grandes responsáveis pela mortandade diária de milhares de africanos, pela fome ou pelas armas que lhes vendem, para já não falar da responsabilidade pelas anexações a que os colonialismos recentes dos seus países os obrigaram a tornar o continente do mundo mais subdesenvolvido.
E os chefes dos estados de África a retratarem-se como sendo os maiores déspotas actuais e que têm fortunas incalculáveis que, à custa dos seus amigos europeus e amerdicanos, lhes vieram ter ao bolso, mas que de agora em diante iriam transferi-las para o bem daqueles pobres desgraçados de que são donos e senhores.
Mas vou ler isso nos jornais, por certo!

quarta-feira, dezembro 05, 2007

A Inversão do Papel do Estado

Com as desculpas antecipadas ao Timoneiro e ao Ukabdsinais por ser eu a publicar aqui o que me enviaram, aqui vai:
DN 03/12/07
A INVERSÃO DO PAPEL DO ESTADOJoão César das Neves, professor universitário
O futuro terá muita dificuldade em entender a nossa obsessão com o Estado. Esta é a época que mais teoriza sobre o papel das autoridades, onde os poderes públicos mais se esforçam por melhorar a vida dos cidadãos, mas onde existe a maior confusão, atropelo e ambiguidade nesses mesmos poderes. O Estado não faz o que deve e anda a meter-se onde não é chamado. Assistimos nos últimos tempos a um recuo evidente do Governo nas suas funções básicas. Ao mesmo tempo há funcionários, fiscais e técnicos a invadir a intimidade dos cidadãos em nome da segurança e bem-estar. Se isto continua em breve teremos uma inversão total da estrutura institucional.O mais surpreendente é que muitas mudanças básicas acontecem, não por razões ideológicas, de forma planeada ou segundo análises fundamentadas, mas por mero deslize. São consequências laterais de tácticas oportunistas, expedientes patetas ou golpes de conveniência. A tacanhez política está a ter efeitos radicais que dificilmente serão corrigidos.O recuo do Estado nas suas funções próprias é bastante evidente. Desesperado pelo défice, o Governo perde de vista o seu papel. A fúria de privatização há muito deixou de ter propósitos estruturais, para se tornar mero instrumento financeiro. Privatiza-se não o que se deve, mas o que rende. Como as corporações capturaram as funções que deveriam exercer, cada ministério trata mais de reivindicações de profissionais que do seu serviço ao povo.Um recente caso escandaloso é o das Estradas de Portugal. Entregou-se a uma sociedade anónima uma função essencial do Estado, a liberdade de circulação, pois estradas abertas constituem um direito fundamental de cidadania. Qual a razão? A bomba de relógio financeira das SCUT, criada na ilusão de obter dinheiro privado para infra-estruturas, está a explodir. Por isso entrou-se numa fuga para a frente, generalizando a abordagem. Quando o primeiro-ministro afirmou em 16 de Novembro que a nova empresa tem por objectivo a "sustentabilidade financeira", ele sabe que isso só será possível com uma qualquer forma sofisticada dos antigos bandoleiros dos atalhos.Enquanto aliena funções fundamentais, a sempre crescente máquina estatal atarefa-se a tratar da violência doméstica, inovação tecnológica, galheteiros nos restaurantes, embalagens de brinquedos. Proíbe o fumo, o ruído e o excesso de velocidade, promove o aborto e facilita o divórcio. Dizemos ser um país livre, mas é impossível a matança do porco, brindes no bolo-rei, ou termómetros de mercúrio.Tudo isto no meio de uma fúria legislativa, onde novas versões de diplomas surgem antes de secar a tinta nas anteriores. Um exemplo sugestivo, já que se fala de trânsito, é o Código da Estrada. O Estado, que se demite da gestão rodoviária, está cada vez mais enfiado com o condutor ao volante. Como andar de automóvel não muda há décadas, seria de esperar estabilidade nessa legislação fundamental que afecta toda a população. Pelo contrário, esse campo é um emaranhado de diplomas.Referindo apenas os principais, tínhamos um código, aprovado pelo Decreto-Lei n.º 114/94, de 3 de Maio, que foi depois revisto e republicado pelos DL 2/98, de 3/1, e 265-A/ 2001, de 28/9, e alterado pela Lei 20/2002, de 21/8. Então o Governo decidiu criar um novo Código, que aprovou pelo DL 44/2005, de 23/02. Desde então, nestes dois anos já foram publicados 26 novos diplomas que o complementam, corrigem e acrescentam. São quatro leis, cinco decretos-leis, dois decretos regulamentares, seis portarias e nove despachos. O site da Autoridade Nacional de Segurança Rodoviária, na secção Trânsito, tem um total de 46 diplomas que devemos conhecer cada vez que entramos num carro.O mais incrível é que os responsáveis não se dão conta de que esta profusão legislativa apenas manifesta a sua tolice, impotência e incapacidade. O Estado tornou-se uma galinha tonta, a correr em todos os sentidos. As gerações futuras vão divertir-se com este tempo infantil que acha que a lei resolve tudo mas não consegue decidir qual lei o deve fazer.

Resposta do Ukabdsinais:
Não posso deixar de dizer isto:

Este senhor César das Neves é um dos mais acérrimos fundamentalistas católicos que existem nesta merda de país. No referendo ao aborto deu a cara pelo não com
argumentos tais como genocídio de criancinhas, quem abortar vai para o inferno e coisas assim. Além disso pertenceu a um dos governos do Cavaco.
Não sei nem me interessa se esta alimária é ou não um reputado economista ou se tem ou não razão, neste caso, naquilo que escreve. Se calhar até tem.
Mas não consigo evitar enviar este aborto para a puta que o pariu mais o caralho que o foda.

Pronto, já disse.

E a minha verborreia:
Além de subscrever totalmente as palavras do Ukabdsinais, atrevo-me a dizer mais:

Na história muito recente deste povo que habita o planeta Terra, talvez não mais de há 50 anos para cá, o que alguns pensadores mais esclarecidos já tinham avisado antecipadamente está a acontecer a olhos vistos. Trata-se da apropriação das mentalidades por parte dos poderes internacionais, quer sejam financeiros, económicos ou políticos. Apropriação esta que, sendo subtil, inteligente, focando a sua matriz no mais humano dos sentimentos de querer o dia de amanhã melhor do que hoje, de forma concertada e organizada criam o desejo de consumir o inútil e desnecessário como um meio de vida, como um objectivo individual de satisfação virtual no caminho da almejada felicidade.
A pessoa deixou de ser humana, com diferentes formas de estar e escolhas diversas, para passar a ser um objecto puro do consumo, de viver em função das poderosas máquinas de marketing publicitário, não lhe podendo escapar a não ser que se assuma como marginal, como minoritário, como permanente lutador contra esses poderes instituídos, onde a regulação e as normas se impõem fortes, indestrutíveis perante o binómio custo/benefício.
Apenas alguns, poucos no meio dos mais de 6 biliões de seres vivos dos quais apenas 2 biliões vivem com mais de 2 dolares por dia, têm capacidade para compreender o que se passa, pois os acontecimentos e as trapaceiras são mais velozes do que o tempo necessário para entendê-las, daí a mais simples das formas encontradas pela maioria de se submeter, sem apelo nem agravo, à apatia, ao não vale a pena individual, ao encolher de ombros. Antigamente esta função, ao nível das mentes, era similarmente efectuada pelas religiões no mundo, embora ainda hajam vários cantos do mundo onde tal acontece. Actualmente, neste tempo moderno, os deuses passaram a ser os donos financeiros e económicos. Nos países ditos mais evoluídos, o deus passou a ser o poderoso humano que tem rosto, a religião passou a ser o mercado do consumo e a água benta tem o nome de dinheiro.
E nascem como tordos os arautos destes atributos, a quem lhes dão o acesso aos meios de comunicação para espalharem a sua fé, a maior parte das vezes de uma forma subtil, encapotada, até dando uma ideia de que são muito humanos e só querem o bem comum, utilizando toda a sua mente prevertida para, ora apregoando uma coisa ora bradando o inverso uns tempos mais tarde, confundir a maioria pouco esclarecida que, na sua pobre inteligência de pão-de-ló, se deixa embalar na cantiga do bandido.
É o caso, de entre muitos que por aí há, deste tal badamerda César das Neves, cujo passado de vida é suficiente para que não lhe possamos dar a mínima oportunidade de estar de acordo com ele, nem que ele afirme que a terra é redonda, o dia tem 24 horas, 2 mais 2 são 4 ou a Fabiana faz o melhor broche do mundo!
Qualquer verdade vinda de malandros assim é pura especulação demagógica. E até são professores!!!

Agradeço ao Timoneiro a atenção prestada por enviar o texto e ao Ukabdsinais por me ter espicaçado as entranhas para esta breve reflexão que convosco quero partilhar.

2º remador

Nota: Sugiro aos meus amigos a leitura do livro saído este ano do Fernando Pereira Marques, "Esboço de um programa para os trabalhos das novas gerações", título que o autor foi retirar a uma obra do Antero de Quental.

ÒH SANTA INFORMÁTICA!

Pois é. Passados vários meses em que não consegui meter aqui umas colheradas, eis que, òh deuses do Olimpo, finalmente parece que estes se apaziguaram e me permitiram voltar a vomitar nesta gloriosa folha as entranhas do meu sentir.
É evidente que vocês, os que têm a infelicidade de aqui vir parar, escusam de vociferar que isto estava tão bem sem as minhas parvoices, pois acabou esse estado de calma em que repousavam. E acreditem que a culpa não é minha, pois só com a inestimável ajuda do tripulante ukabdesinais tal é possível.
Mas tive que suar que nem um texugo para aqui chegar. Foram meses de árduas tentativas, seguindo as instruções que me eram dadas. Mas isto da informática é só para mentes superiores, e um réles ser como eu, não havia meio de o conseguir.
No meio de nomes de utilizador (username...muito fino, muito in, muito american..) e senhas (password.....mais uma fineza, muito informático, muito in, na onda da modernice, bué de yuppi american boy), de instruções de caminhos a seguir (tudo em american, como é apanágio do mundo informático global.....sim, esta é face mais visível da globalidade imperial da criação amerdicana) onde sempre faltava um pequeno senão, de vários computadores partidos em desespero, de sessões contínuas de terapia de grupo, depois de rever vezes sem conta o discurso do Hugo Chavez onde apregoa que vai alterar a hora oficial da Venezuela em menos meia hora, eis que consegui. Devia gritar "eureka", mas não, por respeito ao seu editor.
De facto isto da informática, mesmo o que parece mais simples, é para mentes superiores dotadas de uma inteligência magnânine. Mas com sacrifício parece-me que já consigo publicar aqui umas merdas de vez em quando.
Vamos a ver se a minha sanidade mental ainda o permite!

quarta-feira, novembro 21, 2007

Leituras ao serão

A avó Urzelina, que já perdeu a conta aos anos mas que se bate ainda com uma boa feijoada a seguir a hora e meia de jogging diário, que lê os artigos de opinião do Pacheco Pereira, que gaba a nova dentadura do Paulo Portas e não perde pitada dos discursos do ministro Mário Lino, e que ainda tem tempo para gravar todas as telenovelas da TVI enquanto vê as da SIC, perdeu de repente as estribeiras e desatou aos tiros pela casa fora com a caçadeira que o avô lhe deixara antes de se refugiar em Vladivostok. “Fónix!, como é que uma fulana consegue aguentar isto?”, berrava a avó enquanto despejava mais uns cartuxos na direcção do gato Romeu que fugiu para a cave. Fiquei ali na dúvida se haveria de chamar o 112 ou avisar a prima Ossétia que estava de serviço na travessa do Deboche como é costume, mas por sorte os cartuchos esgotaram-se e a avó Urzelina desatou a partir o serviço de porcelana chinesa que o Presidente lhe tinha oferecido com a coronha da caçadeira. Depois do serviço feito em cacos e a caçadeira partida, a avó sentou-se ofegante na cadeira de balanço, e pediu-me um havano e uma dose generosa de tequila para acalmar.
Chegada a bonança, e por entre novelos de fumo do charuto e goles de tequila, a avó lá se abriu comigo, coisa rara nos tempos que correm. “Tédio, meu filho, tédio, nada mais que tédio. Já não consigo divertir-me com o Mário Lino, nem com os dentes do Portas, nem com as intelectualices do Pacheco Pereira, as telenovelas já são todas cópias umas das outras, o jogging deixa-me cansada e a feijoada provoca-me gases. Tédio, é só tédio.” Confesso que nunca tinha visto a avó naquele estado, e embora tenha tentado animá-la aconselhando-a a mudar as directrizes do seu gosto pessoal, por exemplo, trocar o Mário Lino pelo Van Zeller, o Portas pelo Castelo Branco, o Pacheco pelo Pedro Arroja, o jogging pelo kick-boxing, a feijoada por crepes chineses, e as telenovelas pelo Marcelo, a avó Urzelina recusou e foi ficando cada vez mais deprimida a cada sugestão minha.
Eis senão quando entra por ali adentro o Elias, angariador de militantes partidários em part-time e agente-secreto do patriarcado, empurrando um carrinho de supermercado atulhado até acima de resmas de folhas A4. Deixou-se cair ofegante na única cadeira disponível e falou para a avó: “Trago aqui 63500 cópias de documentos do Ministério da Defesa. Não me façam perguntas que eu também não sei responder. Com os cumprimentos de PP.” E saiu tal como tinha entrado: pela porta.
Agora as coisas voltaram ao normal. A avó largou a depressão num canto escuro, e passa agora os dias a ler as cópias do Ministério. Por vezes eu e a prima Ossétia ficamos ao serão a ouvir a avó ler em voz alta documentos altamente confidenciais e entre compras de submarinos usados que só submergem, petrodólares por debaixo da mesa, férias de luxo no Dubai, negócios de armas e diamantes, e até orientações sexuais de alguns líderes mundiais, por vezes não conseguimos conter as gargalhadas e até o gato Romeu ostenta aquele ar misterioso sempre que o serão se prolonga. Até a prima Ossétia está mais caseira e já me olha com aquele olhar que me arrepelava os cabelos da nuca antes de trabalhar na rua do Deboche.

quarta-feira, novembro 14, 2007

Poesia para os distraídos

No primeiro diploma,
Congelam as progressões,
Acabam os escalões,
E não dizemos nada.

No segundo diploma,
Aumentam o tempo das reformas,
Mexem com todas as normas,
E não dizemos nada.

No terceiro diploma,
Alteram o sistema de saúde,
Há um controlo amiúde,
E não dizemos nada.

No quarto diploma,
Criam-se informações,
Geram-se várias divisões,
E não dizemos nada.

No quinto diploma,
Passa a haver segredo,
As pessoas vivem com medo,
E não dizemos nada.

Até que um dia,
O emprego já não é nosso,
Tiram-nos a carne fica o osso,
E já não podemos dizer nada.

Porque a luta não foi travada,
A revolta foi dominada,
E a garganta está amordaçada.

(de autor anónimo)

segunda-feira, novembro 12, 2007

Segundas-feiras

Às segundas-feiras acordava com a sensação do incompleto. Alguma coisa faltava para que este dia fosse tão feliz como o sábado ou o domingo, ou, porque não, as tardes de sexta-feira. Levantava-me com alguma dificuldade e sono adiado e dirigia-me rastejante à casa de banho. Invariávelmente o espelho devolvia a imagem de um ser distorcido, repelente, um verme esponjoso ou insecto quitinoso saído de alguma metamorfose de Kafka. Nem a higiene matinal, por muito que esfregasse, escovasse, rapasse ou lavasse, conseguia devolver a minha vulgar aparência humana. E acontecia sempre às segundas-feiras. Às segundas-feiras a comida não tinha gosto, os sapatos não tinham graxa, as calças não tinham vinco, as camisas não tinham goma, o telemóvel não tinha rede.
Ia para o trabalho sonolento, ao volante do meu Bentley em quinta mão, único sobrevivente de heranças passadas para além do gato empalhado do avô. Gramava uma hora e meia de fila de trânsito, tal qual um carreiro de formigas parado e sem destino visível até deparar com o formigueiro fruto de depressões e abusos de poder. Os outros vermes e insectos (às segundas-feiras não era o único, felizmente) lá se distribuíam pelos buracos, ninhos, colmeias e até folhas de couve apodrecidas.
Mas o pior era aturar o Escorpião. O bicho tinha um feitio terrível, dava-se de ares e ameaçava tudo e todos com uma ferroada certeira. Por causa dele a Umbelina estava em estado vegetativo há dois meses, o Aniceto uivava à lua e o Remualdo afiava a faca de cozinha na pedra de amolar com o olhar assassino cortado pelas fagulhas, jurando vingança. De quê não sei.

Foi assim até ao dia do discurso. Por acaso a uma segunda-feira. O Presidente falou, e falou, e falou sem parar durante dezoito horas seguidas, e ao culminar as dezassete horas e cinquenta e nove minutos o Escorpião suicidou-se, autoferroando-se. De imediato a Umbelina passou de vegetal a animal, o Aniceto largou a atitude canina, o Remualdo guardou a faca de cozinha. Todos os seres repelentes entre os quais eu me incluía voltaram a ser os vulgares humanos de todos os dias excepto às segundas-feiras. O Presidente foi reeleito e com direito a estátua na Avenida Principal. O seu 1º decreto foi para revogar oficialmente as segundas-feiras do calendário.
Não sei porquê, mas agora tenho a sensação de que todos os dias são segunda-feira...

sexta-feira, novembro 09, 2007

Uma vida saudável

O Timoneiro apresenta mais um estudo altamente científico sobre as dificuldades de uma vida totalmente saudável. Não se sabe quem é o autor, mas é pouco provável que ele leia este blog, portanto...

Dizem que todos os dias temos que comer uma maçã para o ferro e uma banana para o potássio.

Também uma laranja, para a vitamina C, meio melão para melhorar a digestão e uma chávena de chá verde sem açúcar para prevenir a diabetes.Todos os dias temos que beber dois litros de água (sim, e logo a seguir mijá-los, que leva quase o dobro do tempo que se leva a beber).

Todos os dias temos que tomar um Activia ou um iogurte para ter 'L. Cassei Defensis', que ninguém sabe exactamente que merda é, mas parece que se ingerir um milhão e meio todos os dias começa-se a ver toda a gente com uma grande diarreia ou presos dos intestinos.

Cada dia uma aspirina, para prevenir os enfartes mais um copo de vinho tinto, para a mesma coisa. E outro de vinho branco, para o sistema nervoso. E um de cerveja, que já não me lembro para que era.

Se os tomarmos todos juntos mesmo que aconteça um derrame cerebral ali mesmo não nos
devemos preocupar pois o mais certo é que nem daremos conta disso.

Todos os dias temos que comer fibras. Muita, muitíssima fibra até que sejamos capazes de defecar uma camisolona bem grossa.

Temos que fazer quatro a seis refeições diárias leves sem esquecer de mastigar cem vezes cada garfada.

Ora, fazendo um pequeno cálculo apenas a comer vão-se assim de repente umas cinco horitas.Ah, depois de cada refeição deve-se escovar bem os dentes, ou seja:

depois do Activia e da fibra os dentes depois da maçã os dentes depois da banana os dentes e assim enquanto tivermos dentes, sem esquecer nunca de passar o fio dental massajador das gengivas e bochechar com PLAX...
Melhor, amplifica-se a casa de banho e põe-se a aparelhagem de música lá porque entre a água, a fibra, e os dentes vamos passar horas ali dentro, ou seja, quase metade do dia.
Equipa-se também de jornais e revistas para nos pormos a par do que se passa enquanto sentados na sanita.

Se temos que dormir oito horas e trabalhar outras oito, mais as cinco que usamos a comer, faz vinte e uma.
Restam três horas sempre que não surja algum imprevisto.
Segundo as estatísticas, vemos três horas de televisão diárias.
Bem, já não se pode porque todos os dias devemos caminhar pelo menos uma meia hora (dado por experiência: ao fim de 15 minutos é melhor para senão anda-se mas é uma hora!).
E há que cuidar das amizades porque são como uma planta: temos que as regar diariamente.
E quando vamos de férias também senão as plantas morrem.
Para além disso há que estar bem informado e ler pelo menos um dos jornais diários e outro de uma revista séria para comparar a informação.

Ah! E temos que ter sexo todos os dias mas sem caír na rotina: temos que ser inovadores, criativos, renovar a sedução.
Isso leva o seu tempo. E já nem estamos a falar do sexo tântrico!! ( A respeito disso, relembro: depois de cada refeição temos que escovar os dentes!)
Também temos que arranjar tempo para a maquilhagem, a depilação/fazer a barba, varrer a casa, lavar a roupa, lavar os pratos e já nem digo, os que têm gatos, cães pássaros e uma catrefada de filhos...

No total, a mim dá-me umas 29 horas diárias se nunca parar.
A única possibilidade que me ocorre é fazer várias destas coisas ao mesmo tempo: por exemplo, tomar duche com água fria e com a boca aberta, e assim beber logo os dois litros de água de uma vez.
Enquanto saímos do banho com a escova de dentes na boca, vamos fazendo o amor, o sexo tântrico, parado, junto ao nossa/o mais que tudo, que de passagem vê TV e vai contando o que se passa, enquanto varremos a casa.
Sobrou uma mão livre?
Telefona-se aos amigos e aos pais!
Bebe-se o vinho (depois de telefonar aos pais vai fazer falta!).
O iogurte com a maçã pode ser dado pelo par enquanto come a banana com a Activia.
No dia seguinte troquem.
E menos mal que já crescemos, porque senão tínhamos que engolir mais umas cerelacs e um Danoninho Extra Cálcio todos os santos dias.
Úuuuf!

E agora vou acabar porque entre o iogurte, o meio melão o primeiro litro de água e a terceira refeição do dia já não faço a mínima ideia o que é que estou a fazer porque preciso urgentemente de uma casa de banho.
Ah, vou aproveitar e levo comigo a escova de dentes...

terça-feira, outubro 23, 2007

A tasca estava à cunha


A tasca estava à cunha, eram ao todo 27 clientes. O gerente e o anfitrião distribuíram a ementa, recolheram os pedidos, e quando fizeram a contagem faltavam dois pratos: o italiano e o polaco não tinham pedido nada. O gerente reclamou que assim não podia ser, o anfitrião aproveitou para fazer jogging à volta do quarteirão, o polaco fechou-se em copas, o italiano abriu-se em paus. Em coro pediram o livro de reclamações. O gerente interrompeu o jogging do anfitrião a meio da 5ª volta, e manifestou a sua preocupação: - E a ASAE? Se a ASAE aparece por aí?
O anfitrião aconselhou calma, despiu o fato de treino, tomou um duche frio, perfumou-se discretamente, treinou o seu melhor sorriso em frente ao espelho, e entrou na sala resplandecente. O italiano queria uma pizza que não estava no menu, o polaco só comeria se pudesse sentar-se entre o cliente francês e a cliente alemã. Depois de dolorosas negociações, algumas escaramuças, uns tantos sopapos e uns copos de vodka a coisa ficou assim:
o polaco aceitou ficar ao lado da cliente alemã e do cliente espanhol, que assim teve de ceder a sua posição. O gerente, sempre zeloso, propôs que se juntasse mais outra mesa. O italiano viu a sua pizza ser incluída no menu, embora não pudesse levar pimentos por causa das digestões difíceis.
Finalmente toda a gente pareceu satisfeita: o francês deixou escapar um “enfin, c’est la vie!”, o inglês suspirou “shame on you!”, a alemã pregou “mein gott!”, o espanhol cantou “Olé!”, o anfitrião deixou escapar um “porreiro, pá!”, ao que o gerente respondeu “bué, meu!”.
Depois do repasto e dos brindes da praxe, a conta foi enviada aos duzentos mil manifestantes que aguardavam lá fora.
“Fooooda-se...!”, exclamaram todos em coro afinado.

sexta-feira, outubro 19, 2007

Do Sebastião e afins

Andava eu em ameno passeio de metro à hora de ponta quando dou com o Sebastião na gare de Sperm Station encostado a um anúncio luminoso de caviar sudanês. Ali estava ele, impávido, a ver passar os comboios. Estava mais magro, mais bronzeado, e impecávelmente vestido com um fato cinzento Vito Corleone com camisa e gravata a condizer. Cumprimentei-o efusivamente tendo em conta as noites perdidas no passado em fados e guitarradas, mas o tipo retribuiu com a frieza própria dos gajos importantes que subiram na vida fazendo dos outros degraus. Estranhei esta atitude, pois o Sebastião não era nada dado a estas merdas, era até humilde e pacato, quiçá brando,como é vulgar cá no burgo. Apesar da gelada recepção convidei-o a tomar um copo em memória do passado ao que ele aceitou na condição de ser ele a escolher o local. E lá fomos ao Barroso´s, bar da moda entre opinadores de economia&finanças e acompanhantes de alterne. Confesso que nunca ali tinha entrado, e quando deparo com meninos imberbes e borbulhentos com cabelinho à mete nojo e saco de ténis a tiracolo, rodeados de fulanas podres de boas e pobres de espírito, mais uns tipos com pinta de doutores na reforma com o cabelo cinzento enrolado por cima da gola da camisa para disfarçar a ausência na parte de cima, pensei logo em ir embora, mas já o Sebastião penetrava num grupo heterógeneo de espécimens já descritos e se exibia entre apertos de mão, sorrisos Colgate e apalpões de mamas. Apresentou-me como Fulano de Tal, conhecido de longa data, e insigne representante dessa classe indistinta e distante conhecida como povo. Reparei na curiosidade entremeada de alguma repulsa pela minha indumentária comprada na feira de Carcavelos, pela minha barba mal feita, pelos meus óculos escuros made in China. Apenas duas das tais podres de boas se acercaram de mim enfiando os braços nos meus, e perguntando com voz melosa o que eu iria beber. Pedi guaguejando uma imperial, mas não mencionei cautelosamente os tremoços pois naquele ambiente poderia dar para o torto. Enquanto isso o Sebastião parecia mais divertido, segredando inconfidências com os outros figurantes enquanto olhava para mim com ar de gozo. A um sinal do Sebastião as tipas soltaram-me de repente quando eu já estava a ficar com cócegas no escroto, o tipo obriga-me a sentar a um canto recatado do balcão onde o barman nos serve as bebidas, a minha imperial e uisque de malte para o Sebastião. Confesso que não aprovei a troca, a coisa prometia uma tarde bem passada em triunvirato, mas senti uma ponta de curiosidade pelo que viria a seguir. E vai daí o Sebastião desbobina toda a história, desde os tempos de caloiro na Faculdade Oportunista. Aí conhecera um aprendiz de mercenário, que é como se designam os estudantes desta Faculdade, um gajo bem encostado politicamente e bem colocado no top-ten dos melhores alunos. Privou com ele, engraxou-lhe os sapatos, sacudiu-lhe o pó, lavou-lhe o Mercedes quando o homem se fez ministro, apoiou-o à chefia do partido. Depois o tipo baldou-se sem água vai nem água vem e o Sebastião ficou desempregado. Ainda assim continuou a frequentar os meandros do poder e do oportunismo, e graças a isso e ao seu charme particular conseguira um lugar privilegiado como observador de comboios em horas ponta. O mais chato, segundo ele, era elaborar relatórios constantes sobre as idas e vindas, movimentos de passageiros, conversas ao acaso, enfim, um inquérito silencioso à classe popular. E vai daí propõe-me um emprego como seu assessor, ou seja, eu ficaria a ver passar os comboios e a fazer relatórios enquanto ele teria assim mais tempo para se dedicar às suas exigências sociais, com e sem acompanhantes. Apesar do ordenado ser substancialmente superior à minha pobre pensão de incapacidade para o trabalho (sofro de preguiça crónica e bocejo matinal faseado) recusei a proposta, e depois de algumas insistências da parte dele, e de mais umas quantas imperiais, e de mais promessas de contrapartidas e gajas boas uma vez por mês, levantei-me, voltei-lhe as costas e deixei-o a falar sózinho.
Agora sei que o Sebastião trabalha como moço de recados em cimeiras europeias, assim uma espécie de correio de telepizzas para divorciadas debochadas e solteironas atípicas. Não o tornei a ver nem ele tentou contactar-me. É pena, fiquei com saudades de o deixar a falar sózinho.

25 de Abril? Fónix...!



Envia o Timoneiro esta pérola da cultura portuguesa sobre o 25 de Abril.
Realmente, há povos que só têm o que merecem.

segunda-feira, outubro 15, 2007

Isto anda muito às moscas

mas a realidade é que por aqui há uma epidemia de prisão de ventre. Aceitam-se fibras, mézinhas e laxantes. Nada de clistéres. Para isso já temos o Sócrates e os novos genéricos do PSD. Mas esses não entram na farmácia cá da casa. Antes de saírem para o mercado já estão fora de prazo.

sexta-feira, setembro 28, 2007

1, 2, 3, teste, teste

É só para ver se consigo entrar :-))

sexta-feira, setembro 14, 2007

O Caos aqui tão perto

Os falas-barato opinam pela duocentésima quinta vez sobre o caso Mcann, atacam ali, defendem acolá, prevêem isto, desculpam-se com aquilo, falam, gesticulam, atacam, interrogam, condenam. A puta da TV esfrega as mãos de contentamento, e vai contando os euros que vai ganhando com as elevadas audições sobre o suposto rapto/homicídio. A turba/rebanho/manada do costume (ou seja 99,9999% de portugueses) ouve, digere, rejubila, opina, espiolha, condena. Mas eis que um facto novo surge no meio do bordel: Scolari agride/não agride/acaricia um sérvio no final do Portugal 1-Sérvia 1. A turba esquece por momentos o ursinho de peluche da Maddie e concentra-se no punho erguido do Felipão. Os falas-barato viram o azimute e opinam, baralham, descontam, recuam e voltam atrás, avançam e descaiem. O suposto agressor desculpa-se, está sereno, aguarda o castigo com tranquilidade e reza à senhora do Caravaggio para que o chorudo cheque não se atrase no fim do mês. Os Mcann querem novas análises ao carro por um laboratório independente, Scolari diz que não agrediu o sérvio, que só queria proteger o Quaresma que estava a cinco quilómetros da cena, os cães que cheiram cadáveres andaram a cheirar na igreja e quiçá, também no cemitério(!) da Luz, a judite é uma polícia competente ou é dirigida por atrasados mentais com tendências masoquistas, a Scotland Yard parece que quer investigar se o murro que o Scolari deu, não foi ele, se calhar fui eu, a UEFA já fez todos os testes de ADN ao árbitro do encontro e supostamente irá concluir que a pequena Maddie foi raptada por um extra-terrestre sérvio enquanto os pais enviavam mensagens telepáticas ao Scolari para o convencer a partir as fuças ao tipo e esperar que o Madaíl receba a sua parte do fundo Madeleine Mcann para despedir o treinador com uma choruda indeminização e contratar o Dalai-Lama para seleccionador nacional. Os falas-barato já têm aqui matéria para dar e vender. A turba espera impaciente pelas cenas dos próximos capítulos enquanto contrai mais um empréstimo à Cofidis e adia o suicídio até ler a 1ª página do 24 Horas ou pelo menos até ao próximo jogo da selecção.

quarta-feira, setembro 12, 2007

Joe Zawinul



Esteve com Cannonbal, com Miles Davis no advento do jazz eléctrico, com Wayne Shorter fundou os Weather Report. Era um nome incontornável do chamado jazz de fusão.
Faleceu hoje com 75 anos.

segunda-feira, setembro 10, 2007

Cenas dos próximos episódios

Agora que o caso Maddie começava a tornar-se interessante, com o pessoal em vias de lançar os pais da pequena para a fogueira, é que estes regressam à querida pátria, o couto de Sua Majestade. Eu percebo, estes ingleses andam mordidinhos de inveja da nossa comunicação social que inventa cabalas e teorias da conspiração todos os dias, capazes de concorrer com os intrincados enredos policiais de Agatha Christie ou Ruth Rendell, com especialistas na matéria a botarem opiniões nas TV´s, quais Poirot´s armados em Marcelos. Ao mesmo tempo percebo os media ingleses: só eles e mais ninguém podem construir argumentos de perfeito nonsense estilo Little Britain, e nunca, mesmo nunca, deixar esse privilégio para sulistas imundos que apenas servem para lhes limpar as sanitas e servir-lhes o sol de bandeja a preços de saldo.
Vamos esperar pelos próximos capítulos, desta vez em inglês com legendas em português em que os maus da fita serão agora os investigadores da judiciária, e, por tabela, essa turba de desgraçados que tanto chora a má sorte da pequena Maddie, como quase atira pedras sofre os seus paizinhos endinheirados.
A verdade, se é que ela existe, tem fortes possibilidades de continuar bem escondida.

sexta-feira, setembro 07, 2007

História do Futuro

Estudos recentes indicam que a manter-se o actual número de nascimentos em Portugal a renovação das gerações estaria posta em causa. Ou seja, caminhamos a passos largos para desaparecermos do mapa, o que, diga-se de passagem, o resto do mundo nem sequer irá dar por isso.
Quem disse que os portugueses não têm objectivos concretos e inteligentes, que só vivem embalados pela sra de Fátima, pela telenovela, pelo futebol e pelo telemóvel? Finalmente estamos todos unidos num objectivo concreto, que irá transformar o nosso futuro num amanhã radioso: a auto-extinção.
Qual choque tecnológico, qual quê!

quinta-feira, agosto 30, 2007

Regresso (atribulado) de férias

Pôrra, pá! Estava um gajo muita sossegadinho em Trás-os-Montes, a comer e a beber até cair para o lado, a dar umas valentes passeatas e a namoriscar com a sócia, e de repente acabam-se as férias e toma lá o Barroso, toma lá o Sócrates, toma lá o Cavaco, e mais o Júdice, o Arnaut, o Mendes, o Meneses, o Jardim, e mais o pénis que os fornique a todos, que só dá vontade de largar tudo e voltar para Santa Pachacha de Assobio e enfiar os cornos num pipo de vinho até perder a consciência.
Isto não se faz, não se faz!

sexta-feira, agosto 03, 2007

Vou a banhos



De preferência para um sítio onde os telemóveis não parem de tocar, onde não haja um grão de areia para estender a toalha, onde para chegar à praia a tempo e horas tenha de me levantar às 3 da manhã, onde não faltem centros comerciais para passear nem merdosos jet-sets com pinta de telenovela. Pretendo aguçar a minha veia masoquista que se iniciou a escrever para este blog e que agora tento manter sózinho mal e porcamente. Se algum tripulante com resquícios de piedade aqui quiser dejectar que o faça enquanto é tempo. Depois das férias não sei se terei mais pachôrra para isto.

quarta-feira, agosto 01, 2007

Estoril Sol Residence




Este é o projecto aprovado para o novo Estoril Sol. Para além da arquitectura discutível que vem substituir um mamarracho por outro, este filme de promoção parece um sketch dos Monty Python. Os tios e tias de Cascais levam-se todos muito a sério.
Não há monte de merda sem moscas...

quinta-feira, julho 19, 2007

segunda-feira, julho 16, 2007

Saramago




Saramago continua a dar cartas. Desta vez opina sobre a inclusão inevitável de Portugal numa qualquer comunidade ibérica. Não sendo eu patrioteiro nem dado a outras merdices do género, leio com algum gozo as reacções às declarações do escritor. Ora Saramago quando ganhou o Nobel recebeu como recompensa a frase do prof. Cavaco que “não li, quem quero ler” sobre a sua obra. Santana Lopes, quando era secretário de Estado da Cultura, única e simplesmente o ignorou. É claro que Saramago vingou-se: pirou-se para Espanha onde ao menos o reconhecem. E continua a vingar-se espetando de vez em quando o ferrão da polémica. Num país que se orgulha de ter alguns recordes idiotas no Guiness e ignora os seus poucos valores humanos e culturais não é de espantar estas reacções. Pode-se concordar ou discordar do homem e das suas opiniões, pode-se até abominar a sua obra, mas há limites para tanta ignorância.

Toda a podridão incha. Até que rebenta.

O Dragão a propósito das eleições em Lisboa.
Polémico mas definitivamente certeiro.

sexta-feira, julho 13, 2007

S. Francisco Jazz Collective



Assistir a um bom concerto de Jazz é algo de fascinante. Sobretudo quando o eterno gajo do assobio ou do gritinho Ooooo! se faz ouvir quando o solista se esganiça numa nota mais aguda. Penso que deveriam atribuir um subsídio a este gajo pois é tão imprescindível num concerto de Jazz como a baquete do baterista. E faz sentir aos outros pacóvios que ali estão a assistir em respeitoso silêncio que é o único apreciador, o único gajo que vibra com a música.
Vem isto a propósito das eleições em Lisboa. Alguns candidatos fazem as suas arruadas rodeados de apoiantes ferrenhos, de bandeirinha em punho, a gritar palavras de ordem tipo “o Negrão é o mais mandão” ou “o Carmona tem uma ganda mona”. No meio desta barbárie há aquele militante mais expansivo, normalmente o que acaba a gritar sózinho as palavras de ordem quando toda a gente já se calou por estar rouca. E depois vêm sempre aqueles que começam aos pulinhos, e obrigam o desgraçado candidato a pular também, e o sujeito sai dali arfante a cuspir maços de tabaco pelo passeio fora, todo convencido que aqueles pulinhos vão dar mais alguns votos. E há sempre uma velha gorda aos beijos a toda a gente ou a dançar o vira, e a esta hora o candidato que já está quase recuperado dos pulinhos tem um enfarte com tanta dança. Falo aqui de candidatos mas esqueço-me da candidata Helena Roseta. A senhora não tem ninguém que pule ou dance com ela, e por isso é que aparece vestida na campanha com aqueles coletes reflectores na esperança que algum eleitor desprevenido se aproxime e lhe pergunte “Dona Helena, quer chame o reboque ou é só um pneu furado?”. E vai daí toma lá o panfleto, vota bem, filho.
Mas a piada toda é quando algum pega na vassoura e se põe a limpar a rua, ou a apagar grafittis com jacto de areia, ou a passear nos camiões do lixo. E quando propõem implodir o Martim Moniz ou transformar a Portela num centro de negócios? E parques de estacionamento nos edifícios da Baixa? Confesso, a última vez que ri assim desalmadamente em campanhas eleitorais foi quando o Marcelo andou a banhos no Tejo.
No fim vale tudo para chamar a atenção do rebanho. Mas neste circo é suposto o papalvo que por acaso assiste ao triste espectáculo ficar tão embasbacado que no dia da eleição lá vá botar o seu voto no candidato que mais o surpreendeu. “É pá o Negrão dá saltos comó camandro!” ou “O da barbicha que é contra os pretos é que diz a verdade, pá!” ou ainda “Se a Roseta anda no lixo deve ter a casinha dela num brinquinho”. Lavagem cerebral de pacóvios ou lobotomia sem dor.
Mas que raio ganha o gajo do assobio e do gritinho Ooooo! nos concertos de Jazz? A organização paga-lhe para o espectáculo parecer mais cool?
“É pá, meu, pá, aqueles marmanjos lá em Espanha sabem apreciar a música, pá! Ele é assobios, ele é gritos esquisitos, pá! Tudo coisas ca gente não está habituada a ouvir nos nossos concertos pelo mundo fora, né?” Será isto que o gajo pensa ou faz o mesmo nos concertos do Quim Barreiros?
A propósito de Jazz, o S. Francisco Jazz Collective inclui alguns dos melhores músicos de jazz da actualidade. O mesmo não posso dizer dos candidatos à Câmara de Lisboa. Aí toda a música desafina.
Para que conste: Andre Hayward, Renee Rosnes, Eric Harland, Miguel Zenon, Matt Penman, Dave Douglas, Stefon Harris e Joe Lovano.
Nestes voto eu.

terça-feira, julho 10, 2007

A única e possível solução para Lisboa



Depois de ler, ouvir e digerir as propostas dos candidatos à câmara de Lisboa, a conclusão a que cheguei é que é mais fácil e mais económico arrasar com aquela merda toda. Faz-se em minutos o que o Santana e o Carmona andaram anos a fazer.
E ficam a saber que não moro em Lisboa, mas o concelho onde vivo também poderia levar com uma destas, embora menos potente e dirigida para um sítio especial: a câmara municipal.
E mais não digo.

sexta-feira, julho 06, 2007

Foi assim?

A Zita é uma ex-comunista. A Zita tem passado os últimos anos a auto-justificar-se. A Zita não tem o pragmatismo de um Pina Moura, nem o verbo saloio de um Mário Lino, mas a Zita tem necessidade de expor o seu passado de militante no PCP como forma de justificar o oportunismo e a falta de coluna vertebral que tem pautado a sua vida política nos últimos anos. Por isso a Zita escreveu um livro de memórias sobre o seu passado comunista. Com os padrinhos que teve no lançamento do opúsculo (Bagão Félix, Vasco Graça Moura, Marques Mendes, Mário Soares, Pacheco Pereira) a coisa vai certamente ser um êxito entre a direita exorcizante do famigerado Partido Comunista Português, Satanás travestido para os mais radicais. Não é crime ser ex-comunista ou se quiserem, ex-PCP. Há muito boa gente que por lá andou, e que por motivos vários de lá se arredou ou foi arredado, e que guardam na memória os anos difíceis da clandestinidade ou os tempos de euforia pós-revolução. Com o espirito livre para assumir erros cometidos.
Mas a dona Zita não cometeu erros. Foi obrigada a cometê-los enquanto militante. Mesmo quando defendia com garra e convicção no Parlamento o direito das mulheres a abortar. Mesmo quando não escondia a sua admiração por Álvaro Cunhal. Por isso a dona Zita deve ter recebido muitas injecções atrás da orelha. Mas agora prefere engolir a pastilha do oportunismo que os dealers da política à portuguesa lhe servem à mesa.

quinta-feira, julho 05, 2007

Dizer mal do governo

A secretária adjunta da Saúde deu o mote: "Posso dizer mal do Governo se for na minha casa".
E não só. Na minha também. E na do meu vizinho do 2º esquerdo. E na tasca do Zé da Esquina quando o sr. presidente da Junta não estiver. E no bar de alterne cá da freguesia às segundas, quartas e sextas antes da reunião do partido. E na missa, muito em surdina para o padre não desconfiar. E no futebol quando se chamam nomes ao árbitro a pensar no nosso primeiro.

quarta-feira, julho 04, 2007

CV: militante do PS

Via Arrastão

CV: militante do PS

José Manuel Carvalho Araújo era director do Centro de Saúde de Braga. Foi diversas vezes convidado a demitir-se. Porquê? Porque teve a distinta lata de denunciar irregularidades verificadas na gestão anterior em que estavam envolvidos destacados militantes do PS. A falta de lealdade do senhor chegava ao ponto de implicar nas irregularidades o tio do novo director do Centro de Saúde de Vieira do Minho. Perante isto, o que acontece? Em Abril de 2006 o ministério manda a Inspecção Geral de Saúde investigar a gestão José Manuel Carvalho Araújo. Conclusão do relatório: gestão exemplar, "segue uma política de qualidade" e é um dos melhores centros de saúde do país. Desta investigação o Ministério da Saúde só poderia tirar uma conclusão: não podia renovar o mandato deste director que segundo a IGS era de uma competência invulgar. E quem o substitui? Maria Helena Albuquerque. Eu sei que vão estranhar por a senhora ser militante do PS. Mas é preciso não ter má vontade e olhar para o seu curriculo: foi afastada das suas funções de directora do Centro de Saúde de Póvoa de Lanhoso, por incompetência.

Comentários para quê?

terça-feira, julho 03, 2007

Antes queria ser rico

Enquanto o pessoal vai contando os tostões do parco subsídio de férias para trocar de telemóvel, daqueles que além de tirarem fotos, dão música e coçam as costas, e ainda permitem que se façam e recebam chamadas como bónus, os nossos distintos governantes repartem a cégada entre reuniões e conclusões a níveis europeus com os cocktails da praxe. Mas é vê-los, a eles, aos portugueses no meio da fanfarra geral agarrados ao telemóvel como se de cotonetes para limpar a cera dos ouvidos fosse. Alguém disse, e muito bem, que os portugueses empranham pelos ouvidos. Mas para parir qualquer coisa de jeito, népia. Nem pelos ouvidos, nem pelas narinas. Apenas de vez em quando lhes sai pela boca algum vaticínio em forma de vómito. Nesta Europa da qual agora vamos ser reis durante seis meses, o circo parece assentar arraiais com os espectadores do costume na fila da frente à espera da palhaçada. Estou até convencido que os renitentes e fascistóides dirigentes polacos não irão perder pitada do regabofe. O espectáculo prevê escatologia geral e dejectos servidos em loiça das Caldas com Mateus rosé à mistura. E já se anunciam 21 mil milhões de euros em prol da subserviência lusa e da patobravice alimentada a soro de partidos políticos e autarquias manhosas. Alguém irá cobrar a sua fatia em nome do desenvolvimento sustentado, das novas tecnologias, do novo espaçoporto para Marte e da nova central de teletransporte para o infinito. Até ao último cêntimo, em verdade vos digo.
Não interessa que a saúde e a educação continuem a dar preocupações a quem delas necessita. Isso são só ninharias comparadas com a grandeza de uma Europa governada pelas mãos calejadas dos portugueses, mesmo que seja a mando da Dona Merckl e do Senhor Sarkovsky. O destino já está traçado, do Minho ao Allgarve.
Para o ano o pessoal irá trocar o telemóvel que coça as costas por outro que provoca orgasmos, e lá iremos todos cantando e rindo no meio da depressão geral rezando a Nossa Senhora para que não nos cortem no subsídio nem deixem sair o Simão do Benfica.
Antes queria ser rico...

Começar de novo

Pois é. Aqui estamos de novo com a cara um pouco mais lavada.
Espero que desta vez a contribuição dos marujos seja na devida proporção com que deitam abaixo imperiais, copos de tinto, e cocktails marados.
Ainda tenho alguma esperança nisto, pôrra!

sexta-feira, abril 27, 2007

Marinheiros




O barco está-se a afundar...

terça-feira, abril 24, 2007

Parece que ainda vale a pena comemorar o 25 de Abril


Zeca Afonso Memorias

Porque não vou comemorar os 33 anos do 25 de Abril

Faz amanhã 33 anos que nasceu uma nova esperança.

Mas o parto correu mal e é o que hoje se vê.

Eu sei, a gente conseguiu umas coisitas, já se morre menos à nascença, temos acesso a resmas de informação e produtos de consumo que não servem para nada na sua maioria, gozamos de alguma liberdade relativa, estamos convencidos que o nosso nível de vida melhorou alguma coisa em 33 anos...mas tenho aqui uma espinha cravada na garganta, uma sensação de que algo ficou algures pelo caminho...

Alguém sabe de algum país ou lugar onde não tenha de levar com o Sócrates, o Mendes, o Portas, o Belmiro, os Loureiros, o Jardim, o Salazar, o Pinto da Costa, o Santana, o Cavaco, o Noddy e a Lily Caneças a toda a hora? Alguém sabe de um lugar onde não se fale da Ota, do TGV, do túnel do Marquês, do Apito Dourado e do diploma do Sócrates? Ao fim de 33 anos é esta a triste sina que nos deixaram ou que nos querem impôr?

Foda-se, pá, eu já nem me lembro onde estava no 25 de Abril de 1974...

terça-feira, março 20, 2007

Acreditem que estou mesmo chateado, pá!

Estou triste. E muito desiludido. Andei eu a rezar padre-nossos e ave-marias todos os dias após o pequeno almoço, fui a pé até Fátima (desde a Tia Alice), e de comboio, e de autocarro, e de táxi, e só não fui de metro porque lá não há estação, para no final o meu querido partido de sempre, o CDS-PP, o partido mais cristão do Ocidente, e talvez mais cristão que Cristo, o partido que tem nas suas fileiras gente tão ilustre como a Zézinha Nogueira Pinto, o Nuno Melo, o Telmo Correia, o gajo que manda lá naquilo e que parece que se chama Ribeiro e Castro, o gajo que já mandou e quer mandar outra vez naquilo e que parece que se chama Paulo Portas, o partido que sempre defendeu os grandes e morais principios da santa puta madre igreja católica, o partido de Deus, Pátria e Família ou morte, o partido do velhinho de Santa Comba, o tal que se não tivesse morrido ainda hoje seria vivo, enfim, o partido mais casto e mais puro da cena política cá de casa deu uma triste imagem de si próprio ao sofredor people português do Minho ao Allgarve. Não está certo. E ninguém me tira da idéia que essa coisa que dá pelo nome de Paulo Portas mais não é que um terrorista esquerdista infiltrado com a tenebrosa missão de acabar com o CDS-PP e com toda a direita portuguesa.
Não calculam como tudo isto me chateia. Não foi para isto que se fez o 25 de Abril.

sexta-feira, março 16, 2007

Viva a Escravatura!

Pronto. A imagem tão sui generis dos portugueses tristes, fadistas, elas de chinela no pé e farto buço, eles de garrafão de cinco litros e sapato preto com meinha branca, brutos, analfabetos, servis, lambe-botas, e acima de tudo cobardes, foi mais uma vez mostrada ao mundo com os exemplos edificantes da exploração de força de trabalho em Inglaterra e no país basco espanhol. Uma bem esgalhada imagem de marketing de um país que o não é, que não sabe ser, e que não quer saber, em suma um país invertebrado habitado por invertebrados. Um fenómeno zoológico a precisar de investigação urgente.
Uma verruga no processo evolutivo do ser humano. Se Darwin fosse vivo já teria dado um tiro nos cornos ou bebido cicuta.
Estes seres rastejantes devotos de todas as virgens que lhes botam á frente, lambe-cús de padres e patrões, fiéis seguidores dos charlatães que lhes vendem Deus, Pátria e Família como quem vende cartões de crédito em centros comerciais, é o povo eleito para se assumir hoje e sempre como escravo. Se lhes perguntam "Queres ser livre?" logo respondem "Não, quero ser escravo.". Spartacus havia de lhes cuspir em cima, nesta gente que prefere cantar loas a alimárias de Santa Comba Dão e a comedores de bolo-rei de Boliqueime, nesta gente que se orgulha de um passado de merda, que vive na merda no presente e a quem se acena com um futuro de merda, nesta gente que gosta de ser escrava e disso se orgulha. Spartacus escarraria com gosto em cima deste povo, gente assim não merece a liberdade, gente que teve tudo ao alcance da mão, o progresso económico logo ali ao virar da esquina, a justiça para todos em frente ao nariz, a educação a saúde e o bem-estar a entrar pelos olhos adentro, e tudo isso varreu, tudo deitou no cano de esgoto, tudo isso sacrificou por ser cobarde, estúpido, pato-bravo, corrupto, vendido, chico-esperto. E acima de tudo por querer ser um escravo, de si próprio e dos outros, um verme sujo e deprimente sem nenhuma ponta por onde valha a pena pegar.
Custa dizê-lo, mas tudo isto me mete nojo. Esta triste condição de ser português já me enoja.

terça-feira, março 06, 2007

Terror na Auto-Estrada

Sempre me fez confusão que numa auto-estrada com 3 faixas existam maduros que se alapam na faixa do meio a 100 km/h e que se deixam ir na boa e nas tintas para os que não têm qualquer alternativa senão em ultrapassá-los pela direita, quando não o podem fazer pela esquerda como deve ser e em segurança. E se por acaso se lhes chama a atenção para o facto, ainda esbraçejam e incham de razão, e continuam na sua faixa mediana, na sua velocidade mediana, a servir de rolha e tampão à melhor fluência do tráfego.

Mas vendo bem até está certo. Estamos em Portugal, não estamos? A mediocridade é a nota máxima do establishment luso-pacóvio, espalha-se pelos interstícios labirínticos da administração a todos os níveis, produz sementes nos partidos políticos, cresce desalmadamente sem rega nem controle de temperatura. É uma praga incontrolável, uma doença sem vacina, um furúnculo auto-sustentável. Ser medíocre é conduzir sempre pela faixa do meio, é ficar nas meias-tintas, no meio da tabela, a meio da praia, é ter medo de molhar o pézinho na água fria do mar e preferir ficar lá longe, no areal, à sombra do chapéu de sol a ler a Bola ou a Nova Gente. Ainda se lessem Pessoa, Stendhal, Garcia Marquez, Cardoso Pires, enfim, até lhes desculpava não subirem ao alto da falésia e atirarem-se de cabeça cá para baixo. Sempre podiam enterrar a cabeçinha na areia por uma boa causa.

Com tantos medíocres a debitarem nos jornais, nas rádios e nas TV´s é natural que o vírus da mediocridade se espalhe consumindo toneladas e toneladas de neurónios, é assim uma espécie de super-aviário com gripe das aves galopante, que em vez de matar zombivifica, ou seja, transforma o doente num zombie ou morto-vivo, pronto a contaminar ainda mais com uma simples mordedura. Mordeduras que provocam patologias mutantes e infecções prolongadas que tanto podem ter o nome de "branqueamento do regime salazarista" como de "regresso de Paulo Portas à política" ou ainda "Alberto João Jardim demite-se e quer eleições na Madeira". E o grande bando dos media-medíocres (media, estão a ver?) logo se presta a comentar, dissecar, raspar, analisar, deglutir e regurgitar estes fenómenos patológicos contribuindo ainda mais para a sua expansão e sobrevivência. É uma peste negra sem vítimas mortais, porque ela própria também assina pelo meio, pela paz podre, pela morte sem morte aparente, que também ela apanhou com o vírus pela proa e já nem matar consegue neste cantinho a meio da praia de cú pró ar plantado. Já tem a foice com ferrugem, a filha da puta.

Bem podem empertigar-se os que tentam dar a volta a este gravíssimo problema de saúde pública. Bem pode o ministro fechar mais urgências a eito que a mediocridade geral continuará impávida e serena a viajar pela faixa do meio, que na faixa da esquerda os aceleras de pacotilha se vão encostando uns aos outros a ver quem consegue passar à frente e ser mais medíocre que os que ficam atrás, que a faixa mais à direita se transforme num corredor vazio e convidativo, num tapete vermelho para o podium da competição desenfreada e da mediocridade incontida ou, quiçá, um caminho mais seguro para marrar com os cornos nas traseiras de um camião TIR.

O que, diga-se de passagem, até seria um mal menor.

domingo, fevereiro 25, 2007

Zeca Afonso

Gostei muito do texto que vem na Visão em http://visaoonline.clix.pt/default.asp?CpContentId=332894.

Continuo a não perceber porque tantos filhos da puta continuam a viver e um HOMEM como o Zeca teve que morrer.

GOD SUCKS

quarta-feira, fevereiro 14, 2007

Missão Impossível IV

Notícia muito interessante vindo ela donde vem. Pois é, se todos os povos que descobriram as Américas e que depois andaram por lá ao despique a ver quem mais chacinava e gamava, se se tivessem autodestruído como os Vikings, certamente hoje o mundo seria bem melhor do que é. Afinal, a perpetuação da rebaldaria assentou arraiais no novo mundo e por lá tem ficado a exportar o morticínio para outras paragens e a colher frutos e dividendos.
Se a devassa dos conquistadores funcionasse como um episódio de "Missão Impossível" lá teríamos a mensagem fatal: "este império autodestrói-se dentro de 5 segundos".
Pelos vistos esta teoria do senhor Chirac não teve qualquer efeito sobre os heróis lusitanos.
É que este povinho anda há gerações a autodestruir-se, ... lentamente... muito lentamente...

terça-feira, fevereiro 13, 2007

QUEM NOS GOVERNA HÁ 30 ANOS

Às vezes acontece que nos passa pelos olhos uma escrita que diz tal e qual o que queremos dizer, só que duma forma mais simples e objectiva. Por isso não resisti a colocar aqui uma "carta ao director" publicada no "Público" de hoje:
"Quando Santana Castilho, entre muitos outros professores, na sua costumada missionária e militante diatribe contra este Governo e, principalmente, contra esta ministra da Educação (ou melhor ainda, contra tudo o que "cheire" a Governo - "Hay Gobierno, soy contra!"-, oh, Deus, também eu, durante tantos anos, tive lugar cativo e permanente na 1ª fila dessa tribo anarca!), faz, uma vez mais, referência ao infindável e desgraçado rol de tudo aquilo que já todos sabemos e de que todos temos opinião formada e segura - a corrupção, as negociatas, a impunidade das criaturas que nos têm governado, sem competência nem talento, as medidas disparatadas elaboradas por autênticos mentecaptos, a falta de profissionalismo, de inteligência e de lucidez de todas as equipas ministriais portuguesas (ainda que a actual pareça ser a mais terrível e mais demencial do mundo!), etc., etc. -, esquece-se uma vez mais de que toda essa miserável incompetência, todos esses desgraçados que nos têm governado, todas essas aventesmas que são todos "os outros" e que poluem o espaço à nossa volta, foram alunos das nossas escolas, foram alunos dos nossos professores, foram nossos alunos!(...)
Além do apontado e sempre o mesmo eternizado "cansativo discurso de décadas", temos agora o cansativo discurso de dois anos (tão cansativo como o outro!) de que tudo o que está aí em movimento é mentira, não tem pés nem cabeça e vai para pior. Tudo o que se tem feito só traz o mal absoluto e tudo é só para nos afundar ainda mais face à Europa! É a desgraça completa!
Fechemos a porta, passemos o cobertor pela cabeça e apaguemos a luz!...Não se espere nunca que, de entre toda a vacuidade sandia que rodeia estes comentadores, surja alguma vez e em alguma época alguma solução. Claro, excluindo a deles próprios, já me esquecia!
Ah, mas antes do cobertor e de, inúteis desiludidos e absolutamente descrentes, nos entregarmos a Caronte para a passagem, façamos um telefonema: "Alô! É da Al-Qaeda? Olhem, seria possível fazerem o favor de vir até cá pôr uns petardozitos em Belém, em São Bento (no quarteirão todo, em baixo e em cima!), no Terreiro do Paço e na 5 de Outubro? E já agora, uma vez cá, talvez não fosse má ideia arrasar todas as escolas deste país que formaram toda esta gentalha menor, incapaz e palerma, que nos tem governado! Mas, atenção, não toquem na "nossa" escola, que nos fez tão diferentes!"
Não fosse a ultima frase do sr. Ruben Marks aqui trancrito, e por mim levava a bicicleta inteirinha. Pois quem conheceu a tal "nossa" escola sabe que essa era não apenas o laboratório da continuidade mendecapta, embora alguns raros exemplos fossem excepção, mas acima de tudo foi a responsável pela "formação" dos progenitores dos actuais.
Até me apetece dizer que a escola actual apenas se "modernizou" com a introdução do nova disciplina da educação sexual onde se aprende que:
EDUCAÇÃO SEXUAL É DIZER OBRIGADO NO FIM!!!

E AGORA ?

Ainda tive alguma esperança que o país pudesse continuar na mesma, cada vez a afundar-se mais, suavemente, tranquilamente. Mas quando às sete horas da tarde de Domingo passsado as televisões deram, em simultâneo, a vitória do sim, fiquei estarrecido.
O não ao aborto, isto é, a negação da negação, melhor dizendo, o não permitir que se fizessem abortos neste país tinha sido derrotado!
O que vai ser deste país onde não vão passar a ter vida os abortos? Como vai ser a futura geração de políticos, de economistas, de empresários, de patrões, de juízes, de directores gerais, de secretárias de estado e sem estado, enfim, como poderá este país sobreviver se deixam de haver abortos não abortados?
Não consigo imaginar o futuro sem Albertos Jardins, nem Pachecos Pereiras, nem Sócrates, nem Marques Mendes, nem Soares, sem Nunos Portas, sem Diogos Freitas, sem Belmiros, nem Bulhosas, nem Veras Jardins, enfim, sem todos esses valorosos patriotas que sempre têm orientado os destinos de um país tranquilo, seguro e próspero de 860 anos.
Mas o impacto das notícias acabadas de sair foi-se esvaindo aos poucos, à medida que entrava em reflexão mais racional, ajudado pelos inumeráveis comentários que se seguiram em catadupa.
Afinal ainda devo acalentar alguma esperança no futuro, pois nem tudo está perdido. Só se perdem os abortos com idade inferior a dez semanas e, bem vistas as coisas, que diabo, não me recordo de que os abortos vivos que têm assegurado a tranquilidade e bem estar deste país alguma vez tenham chegado aos lugares importantes do poder desta sociedade ainda na idade da desmama.
Afinal o país pode continuar, calmo, tranquilo e em permanente evolução na continuidade, assegurando que o bem estar de todo este povo sempre estará no auge da proporção!

quinta-feira, janeiro 25, 2007

O Referendo do Aborto ou o Aborto do Referendo

Vou votar SIM. Mas poderia votar NÃO.
Mas cá por mim, directamente e pessoalmente, tanto faz. PORQUE EU NÃO CONSIGO PARIR.

Portanto não percebo todos os homens que aparecem por aí a dar opiniões muito sérias como se les alguma vez já tivessem pasado ou possam passar por um aborto. O máximo que conseguem fazer é acompanhar a grávida ao local do aborto.

Por isso digo que tanto me faz votar SIM como NÃO.

No entanto assusta-me a idiotia dos NÃOS em quererem fazer crer que a "não penalização" aborto nas condições definidas é o fim do mundo, que todas as mulheres vão abortar, etc. Mas que ABORTOS eles são.

Eu poderia votar NÃO só numa condição: penalizem o homem também. Ou o feto apareceu por obra e graça do Espirito Santo?
Condenem o futuro pai e futura mãe da mesma maneira mas tendo também em consideração as suas condições económicas, sociais e até médicas.
Será que nesta situação os homens se pronunciariam da mesma maneira?

Falam todos em assassínio mas ninguém fala em assassinio quando não são dadas condições para uma criança crescer segunda a "Carta dos Direitos da Criança". Ainda mais ridicula e hipócrita é a posição da Igreja - porque não defendem uma educação sexual de qualidade, porque não gastam o dinheiro (que de certeza estão a gastar nesta campanha) em apoio e aconselhamento aos casais e aos jovens.
PORQUE PROIBEM O PRESERVATIVO? HIPOCRITAS

Se o feto é um ser humano desde o momento inicial (ou seja quando o espermatezoide se junta ao ovulo) então:

>Também vou poder receber o subsidio infantil a partir dessa altura?
>Se o feto morrer posso pedir o subsidio de morte (para quem tem)?
>Tenho que lhe dar um nome, registá-lo e obter uma cédula?

Segundo dizem não existe o direito de interromper esta vida, mas não os vejo a lutar do mesmo modo contra a MORTE em guerras, a MORTE à fome, a MORTE por não termos dinheiro para pagar cuidados de saúde atempados e de qualidade - HIPÓCRITAS.

Concordo que as imagens em que andam aí na WEB são violentas mas também já li que são de fetos com idade superior ao que a lei prevê.

Quanto ao SIM, por experiência própria sei que o aborto afecta bastante a mulher, mas também já se sabe que existem mulheres que o utilizam de forma sistemática, quando existem outros meios que, à “anteriori” previnem a concepção e que saiem mais baratos que efectuar o aborto. Não deverão estas situações ser criminalizadas?

Prontos – já botei faladura e como vozes de burro não chegam ao céu, eu cá fico neste inferno.

domingo, janeiro 21, 2007

Bom, hoje é domingo e está um dia magnífico.
Não me apetece defecar por aqui. Vou defecar para outro lado

segunda-feira, janeiro 08, 2007

Deram cabo de mim

Passei-me. E agora creio que foi de vez. Foi cravado o último prego no caixão da minha sanidade mental. A discussão em torno do aborto deu definitivamente cabo de mim. Tivesse eu nascido mulher e já teria abortado dez vezes seguidas face ao que tenho visto e ouvido sobre o assunto nos últimos tempos. Por isso, não se queixem desta profunda crise de mau gosto. Não estou em mim.
Se o NÃO ganhar, juro que nunca mais terei uma única relação sexual na minha vida, nunca mais farei um filho, e tentarei impedir por todos os meios que mais alguém os tenha. Nem que me suicide à bomba na maternidade Alfredo da Costa. Se o SNS fosse pagar os abortos caso o SIM vencesse, então este serviço não teria de pagar mais nada. Nem um parto, nem uma operação ao apêndice, nem um transplante de medula, nem uma lipoaspiração, nada, rien, niente. Sejamos coerentes. A saúde não se paga, beatifica-se. Quem tiver uma dor de dentes que recorra ao prior da freguesia, quem tiver SIDA que vá direitinho pró inferno, quem necessitar de um coração novo que vá a pé, de rastos ou de trampolim até Fátima, reze 200 ave-marias e 300 pai-nossos, beije a mão ao bispo. Quem sofrer as tentações da carne que opte pela vergasta do verdugo, que se autoflagele em público em plena procissão e à vista de todos incluindo o patriarca. Não há mal que a santíssima igreja católica-apostólica-romana não cure. E por último a solução final: castre-se o pecador/a à nascença, e recorra-se à emigração para ocupar os lugares vagos pela ausência de nascimentos. Não faltarão criancinhas para adoptar ou para alugar. Os defensores do NÃO assim o exigem. É a sua sobrevivência que está em causa.
Por outro lado, se o SIM ganhar, abrirei uma clínica, ou melhor uma rede de talhos disfarçados de clínicas em todas as capitais de distrito, onde os abortos até às dez semanas serão seleccionados, separados, retalhados, temperados e amassados até encherem quilómetros e quilómetros de cordões umbilicais e vendidos como chouriços de Arganil aos teóricos da defesa da vida. Não há-de haver aborto que me escape, todas as mulheres serão vigiadas e catalogadas. Os machões, os violadores, os tarados sexuais receberão subsídios para espalharem a sua semente pelo erário feminino. E seremos todos nós a pagar o festim, rapaziada! E é bem feito porque andam todos a mangar com a gente e a gente a ver! As Zézinhas, os Gentis, os Bagões, os Borges, os Jardins, os Mendes, os Sócrates, os Cavacos, os Rios, o Millenium BCP, o Espírito Santo, o Papa, o Marco Paulo!
Quando não existe discussão séria sobre um assunto encontra-se a solução mais fácil: o referendo. Assim o governo não se compromete, a oposição não se compromete, o povo não se compromete, ninguém fica comprometido. E o problema é uma vez mais atirado para trás das costas, para o limbo do esquecimento, para a clandestinidade.
Agarrem-me, vistam-me uma, não, duas camisas de forças, agrilhoem-me a um bloco de cimento, guardem-me na masmorra mais funda do Miguel Bombarda.
Conseguirem dar cabo de mim...

terça-feira, janeiro 02, 2007

Feliz Ano Novo??

Esta estória de passagens de ano, de festarolas, espumante, bebedeiras, fogo de artifício é tudo uma grande treta. Festeja-se o final de um ano com a esperança saloia de que o novo é que vai ser, é que vai trazer coisas boas, o euromilhões e coisas assim. E depois é a merda do costume: o custo de vida continua aumentar, o salário a reduzir, as empresas a fechar, a saúde a piorar, o ensino a definhar, o FC Porto a ganhar. E o euromilhões sem sair. Cá para mim o fim de ano é uma invenção destinada aos papalvos que ainda acreditam em bolsos cheios, jeeps topo de gama e férias no Brasil. E ainda não perceberam que ao longo dos anos os bolsos estão mais vazios, o carrinho já tem 180000 Km, e as férias passaram do Algarve para a Costa da Caparica. Há que aliciar as massas com falsas esperanças de melhoria sempre que o ano começa, há que controlá-los na fase do ano em que estão mais frágeis, em que já gastaram os subsídios de Natal em merdas que não valem a ponto de um corno, e que bem poderiam usar para, por exemplo, adquirir um kit de sócio do Benfica ou dar entrada para aquele televisor LCD que faria uma grande inveja ao vizinho. É também por esta razão que os Papas e quejandos aproveitam esta época para discursos metódicamente redigidos para puxar ao sentimento, como a mensagem do Bentinho (o XVI) a confundir o aborto e a eutanásia com o terrorismo, e a do Cavaquinho a ameaçar pôr as coisas na linha se o país não crescer em 2007. Tudo isto o pagode chupa, dissolve, engole e regurgita em doses maciças. Somos como aqueles doentes que são obrigados a assistir ao Natal dos Hospitais em directo e ao vivo, convencidos que as cantigas do Marco Paulo e sus muchachos lhes vai aliviar os males e as dores, mas que saiem de lá com o agravamento das mazelas e a precisarem de tratamento psiquiátrico. É que o mediatismo institucional aproveita precisamente estas alturas para reforçar o seu controlo sobre a escumalha, que é a essência da sua própria sobrevivência. Sem o maralhal embasbacado e anestesiado Papas, Cavacos, Sócrates, Bushes, rabis e aiatolas não passariam de peidos velhos e atrofiados.
Tenham esperança, não desesperem, isto ainda vai ser um grande país e um belo planeta para se viver. Não sei quando, mas isso agora não interessa nada.
Foda-se, lá se foi mais uma vez o euromilhões!...