quarta-feira, abril 23, 2008

Prontos para a tosquia



Qualquer rebanho tem tendência em seguir o bode mais velho, o que tem os cornos mais duros. Isto quando o cão de guarda não ferra o dente em algum quadril para se fazer respeitar. O respeitinho tem de facto uma hierarquia, uma linha recta de autoridade.
No rebanho, o cão ladra e morde para impor um determinado sentido, enquanto o bode discute à marrada o direito à supremacia sobre os outros machos pelo domínio das fêmeas. De facto, quem manda é o cão, que tem mais a ver com matilhas do que com rebanhos.
Quando o rebanho se tresmalha, cada macho tende a formar o seu próprio grupo pastoril seduzindo os outros, movendo influências, apelando às élites. Por vezes o bode velho remete-se a um silêncio táctico, deixa os outros avançar e tomar a dianteira, deixa-os levar o rebanho até à beira do precipício. Quando o leite azeda, o bode velho chega-se à frente empurrado pelos outros bodes, pois sabem que mais cedo ou mais tarde a sua vez há-de chegar.
Quanto ao pasto, terá de servir apenas para os mais chegados. Os outros, os cordeirinhos, servirão apenas para empurrar o bode velho até ao comando do rebanho, e depois serão descartados implacávelmente. É que há sempre um lobo mau à espreita na floresta que necessita de ser alimentado. Às vezes veste uma pele de cordeiro, outras confunde-se com um cão de guarda.
Por estas e por outras é que já se confundem rebanhos com varas de porcos cor-de-rosa.

sexta-feira, abril 18, 2008

O que será de nós?



Sem o Herman, com os "Gato Fedorento" em hibernação, com o Santana caladinho, só restava este rei da comédia para animar. Será que vai e não volta?

Sinceramente, num país com tanta falta de humor deviam conservar quem tem um talento inato para fazer rir.
Há quem se esforçe, mas nunca terá piada.

brown nose

... ou ass-kisser, para designar os famigerados lambe-cús que proliferam um pouco por toda a sociedade.
Isto em inglês até tem mais piada To suck up or be very nice to your boss or teacher to earn special treatment..
No actual PSD adivinha-se uma mão cheia deles para os tempos mais próximos.

segunda-feira, abril 14, 2008

Consumistas de todo o mundo, uni-vos!

A maior dificuldade em ir ao hipermercado prende-se com a falta de paciência. Atura-se de tudo, e o que é mais grave, ninguém é dono do seu próprio tempo. Mal chego tiro logo uma senha de peixe para amanhar e vou directo para a fila do pão fresco para ganhar tempo, depois passo para a fila do queijo fatiado, em seguida do fiambre da perna, recolho as hortaliças e as frutas e vou para a fila da pesagem, a meio caminho entre os corredores de comida de gato e roupa de saldo dou de caras com o fulano que esteve comigo na associação de não sei quantos, a fazer já não me lembra o quê, e se me esqueci do nome do tipo ao fim de dois ou três anos, o gajo lembra-se do meu perfeitamente e lá vem o rol de cumprimentos, palmadas nas costas, e por fim as queixas da política, do sistema, da sogra, do cão que percebe tudo o que se lhe diz, do filho que tirou 10 a Matemática, da filha que está vai não vai para entrar na Universidade, e que vai alternando entre as caixas do Pingo Doce e as vendas de roupa do Corte Ingles, enfim, um rol de banalidades. Tento despachar o tipo o mais diplomáticamente possível, mas a coisa está difícil. E quando estou quase a enfiar-lhe uma garrafa de cerveja pelo olho esquerdo, eis que lhe toca o telemóvel, é pá, desculpa é a minha mulher, e eu respiro fundo, recolho a cerveja no carrinho, despacho-o com um “gosto em ver-te” e até à próxima, oxalá seja na terra do são nunca à tarde, que nem o cabrão do teu nome eu consigo recordar. Às tantas lembro-me da senha do peixe para amanhar e lá vou eu a acelerar fazendo gincanas arriscadas pelo meio dos carrinhos de compras, carrinhos de bébés, velhas decrépitas, putos à procura dos pais, bétinhas agarradas ao telemóvel. Quando vejo que o número de ordem da peixaria está mais de uma dezena à frente do meu a vontade de partir qualquer coisa ganha cada vez mais força mas em vez disso tiro outra senha e aguardo calmamente a minha segunda vez. Somos um país de brandos costumes, nada de exageros. Ao fim de uma hora de silencioso desespero e já com os chicharros devidamente amanhados a contaminarem de mau cheiro as couves e os alhos franceses, empurro o carrinho em direcção às caixas, e acontece que por coincidência a que tem menos gente na fila é aquela que “vai fechar” como diz a lambisgóia com cara de assobio que está de serviço à caixa. A minha sina é esta, vou para outra fila, a coisa vai andando lentamente com o puto que está com a mãezinha à minha frente a encher-lhe o carrinho com pastilhas elásticas, a mamã a dizer que não “porque ficas sem dentes” o puto insiste, faz birra, reprimo a vontade de lhe abonar a fuça com um tabefe bem dado, mas pôrra!, depois o fodido era eu, e a mamã lá cede, com um encolher de ombros. Mas há sempre mais qualquer coisa a emperrar o sistema, ou é um código de barras que não passa e é preciso chamar alguém para resolver o assunto e ninguém atende o telefone, ou alguém se esqueceu de pesar os bróculos, e quando estou prestes a cortar os pulsos eis que chega a minha vez. Não sei o que faria à menina da caixa se por ironia do destino o multibanco ficasse de repente fora de serviço, creio que um golpe assim na minha insanidade mental levaria a transformar a menina num código de barras.
Como se vê, quem anda às voltas em hipermercados está em permanente suspensão num precipício sem fim, num muito bem afiado fio de navalha. E depois queixam-se que a vida está cara, que a culpa é do governo, que a culpa é da oposição, que a culpa é do raio que nos parta a todos. Se houvessem mais hipermercados mais a clientela se dispersava por todos eles, e assim uma suicida sessão de compras poderia tornar-se num prazer orgástico para toda a família, e num belo exemplo a apresentar pelo sucesso da sociedade de consumo.
Consumistas de todo o mundo, uni-vos!

quinta-feira, abril 10, 2008

O barco já mete água e o Comandante continua em parte incerta - IV

-Quero um naufrágio, já!
Assim berrou o Intelectual quando finalmente conseguiu subir ao cesto da gávea pela 1ª vez. No convés os restantes tripulantes trocaram de olhares e encolheram os ombros. A abstinência prolongada pode provocar alucinações e raivas a despropósito. Das duas uma: ou se abria mais um garrafão de tinto para dissipar o nevoeiro mental de que padecia a Tripulação, ou se iria discutir esta tirada impertinente do Intelectual. Discussão iniciada sobre o que se iria fazer, optou-se por abrir o tal garrafão enquanto se dissertava sobre a exigência do Intelectual. Com esta conclusão o 1º Cabo de Serviço à Pipa subiu o mastro de contentamento e mergulhou lá de cima para o convés falhando as brasas do assador por milímetros. O Assador-mor ainda praguejou mas o Protocolo logo o reprimiu enchendo-lhe o copo até ao bordo. Foi decidido parar com todas as tarefas náuticas enquanto de resolvia a questão. O Cabo de Sinais guardou as bandeiras e sacudiu os sinais de fumo, o Decano largou a meio a sonorização do seu filme “Incertezas de uma Pedra no Silêncio de um Rio Dourado”, o 2º (e único) Remador recolheu o remo no coldre, o Toca o Badalo interrompeu a 5ª Sinfonia de Chopin para Badalo e Chocalho, o Pubic Relations escondeu a “Play-Boy” no cacifo, o Disc-jockey pôs o gira-discos em “pause”, o Timoneiro acordou, e o 1º Cabo de Serviço à Pipa subiu mais uma vez ao mastro desta vez para trazer o Intelectual puxado por uma orelha. E com a moderação consentida do Protocolo a assembleia começou.
Não vale repetir aqui os brilhantes argumentos destes tripulantes sobre a exigência do Intelectual. Desde “se o Titanic naufragou nós também temos esse direito” e “marinheiro ou náufrago, não há meio termo”, ou ainda “acorrentem o Intelectual e queimem-lhe os livros”, de tudo foi dito nesta histórica reunião. De tal maneira a discussão foi acesa que o único ponto de concórdia só foi conseguido à custa de um novo garrafão de tinto: precisamente a decisão de abrir ou não esse mesmo garrafão. No final, e já com o mar calmo, foi resolvido deixar a decisão final para o Comandante que, como é sabido, continua em parte incerta.
Já o Decano, com a total sabedoria que lhe confere a sua avançada idade pensou para com os seus botões : “É incrível como esta Tripulação consegue naufragar sem tempestade. Isto é que é auto-suficiência.”

segunda-feira, março 31, 2008

O novo terrorista


Pacheco Pereira converteu-se ao radicalismo islâmico?
Quem diria, depois das suas posições sobe a invasão do Iraque...
Mas JPP tem desde já meu apoio, tanto mais que outro já está a chegar-se à frente para gáudio desta Tripulação. É que Meneses já está a perder a piada toda, e o Santana anda tão caladinho ultimamente. Acreditem, esta gente faz muita falta para animar a malta, já que o socretismo só dá vontade de chorar.
Como é, JPP? Bombista suicida? Contribuo desde já com uma virgem para o paraíso do Pacheco...

quinta-feira, março 20, 2008

Always look at the bright side of life



Boa Páscoa com "A Vida de Brian"!

quinta-feira, março 13, 2008

No seguimento do post anterior

Informo que não vejo telejornais, não ouço os comentaristas, não leio jornais de referência nem os outros, estou-me saudávelmente cagando (como bom tripulante) para todos estes tipos que se arrumam à nossa custa. Pena é que a merda seja só virtual...
Mas depois de ver por acaso alguns extractos da vida privada de Sócrates pergunto-me se realmente pertenço a este país e a este planeta ou se é o efeito dos calmantes e da camisa de forças que o enfermeiro me dispensou.
Por favor, não me ajudem! Eu mereço isto, mereço, pois!

terça-feira, março 11, 2008

AJUDEM-ME POR FAVÔR!!

Se, por um lado, tenho todo o tempo para ver os orgãos de informação que por aí entram nas casas do pessoal, pois por outro, tal possibilidade leva-me, cada vez mais, no caminho da angústia existêncial. Salvo quando leio os escritos do gato fedorento e pouco mais, nomeadamente as "crónicas" do Ricardo Araújo Pereira.
É quase em desespero de causa, se ainda houver lugar a causas, que vos peço, óh comum dos mortais, a ajudarem-me nesta coisa do mundo em que vivo. Ou melhor, nesta coisa a que chamam país. Ou melhor ainda, neste momento em que já tudo é possível até raiando os limites do humanamente possível!
Então será que não preciso de ajuda quando sou obrigado a ver na televisão, qual garante da verdade impingida e não violentamente contestada, e nos jornais que têm como donos os senhores deste portugal, logo no dia a seguir à estrondosa manifestação em Lisboa dos prófes deste país desfilando na chamada avenida da Liberdade, ser apresentado como de mais importante para a sociedade a "crise" do Benfica??
Então será que não preciso de ajuda quando assisto ontem na tv a uma conversa em família dos monárquicos e dos republicanos?? E como todos são tão amiguinhos, claro que com a ajuda da maçonaria pelo meio e o ex-presidente do BES, acabando aqueles sacripantas com uma tónica que o melhor seria uma monárquia republicana! Ajudem-me, por favôr, que ou eu estou doido varrido ou ando a ser gozado até às entranhas!Sorte os que não viram mais esta alervidade, digo eu.
Então será que não preciso de ajuda quando acabo de ver uma gaja com colar em rodapé onde estava escrito que é comentadora política da rtp, que isto não está nada famoso financeiramente e que os dois mil e quatrocentos milhões de euros que os bancos usufruiram de lucros no ano passado (até fui à máquina calculadora ver quanto é isso em contos...doze milhões), até não é nada demais porque, coitados, têm empréstimos noutros bancos doutros países e tal e coisa e etc...e muitas mais alarvisses para que o papalvo portuga fique a saber que ainda vai ficar mais pobrezinho mas sempre feliz.
Então será que não preciso de ajuda quando sou obrigado, eu e todos os outros por aí, a levar com as tretas do Obama e da Hilary (por acaso até tem uma boquinha...lembram-se do seu Bill?) e do outro fascisóide a cacarejarem democracia e direitos humanos?
Então será que não preciso de ajuda quando me entra pela casa dentro um de tal Vitor Constâncio apregoando que o banco de portugal tem de aumentar a taxa de juro dos empréstimos e tal e coisa e etc, porque isto está mal e todos temos de apertar o cinto(todos, menos ele e mais uns bons milhares nesta coisa a que chamam país), e os bancos, coitados, têm de fazer os possíveis para se safarem porque a culpa é da crise dos amerdicanos que lhes pagam o salário chorudo?
Pois é.Tanta e tanta coisa diáriamente a que assisto que até estou a pensar em ir procurar um emprego, pois afinal de contas mais vale ter uma cambada de chefes de merda do que ter todo o tempo para assistir à merda destas coisas!
E por favôr,não me esclareçam ou expliquem pois por aí não dou méças a ninguém, apenas AJUDEM-ME!!

sexta-feira, fevereiro 22, 2008

O Barco já mete água e o Comandante continua em parte incerta III

Quando o Timoneiro saiu do camarote para a 1ª mijinha do dia estranhou não haver movimento. Nem uma brisa soprando, nem as tábuas rangendo, nem as gaivotas grasnando. Chamou o Assador-mor que chamou o Decano que chamou o Pubic Relations que avisou o Toca o Badalo para tocar o badalo. O Cabo de Sinais acorda desta vez mal disposto, acorda o Protocolo por sua vez também mal disposto, abana o Intelectual que de tão mal disposto não se dispõe a acordar. A Tripulação forma no convés enquanto o Timoneiro procede à contagem (é o único tripulante que sabe contar). Não respondem à chamada o 2º (e único) Remador, o 1º Cabo-de-serviço-à-pipa e o Intelectual que como é sabido continua profundamente adormecido. O Decano ameaça demitir-se, o Assador-mor parece preocupado com a falta de carvão no porão, o Cabo de Sinais está-se cagando, o Protocolo parece perdido em conjecturas enquanto acende um havano, o Toca o Badalo prepara-se para iniciar novo concerto. De imediato o plano de emergência é activado: a tripulação divide-se em vários grupos de busca, uns vão para a proa, outros para a popa, uns procuram no convés, outros no porão, ninguém se lembra do cesto da gávea.
Lá em cima, no citado cesto, o 2º (e único) Remador tenta convencer o 1º Cabo-de-serviço-à-pipa que Cuba não passa de uma ilha rodeada de água por todos os lados, o 1º Cabo continua a duvidar e a Gaivota Decana que entretanto se dera a conhecer tricoteia um peúguinho de lã para oferecer ao Decano. No meio da rebaldaria ninguém repara no Chic Jockey que de jangada a remos aborda o navio, sobe a escada do portaló, põe o gira-discos a tocar “Omolete, Gentil Omolete” e aguarda que alguém lhe dê atenção. “Trago uma mensagem urgente do Comandante!” diz, empunhando um pergaminho cheio de nódoas de vinho. Perante a ansiedade geral o 1º Cabo-de-serviço-à-pipa atira-se do cesto da gávea e cai de cabeça no convés, o 2º (e único) Remador desliza pelo mastro encerado, a Gaivota Decana prefere não se meter nestes arremedos, que são coisas de Tripulantes.
“O Comandante justifica a sua ausência devido a uma missão secreta em Fátima-sur-mer! Espera que todos se portem bem e que não sejam queixinhas. Tenho dito!”.
Mal o Chic Jockey acaba de divulgar a mensagem e já o Timoneiro corre para ele com a roda do leme em riste. “Traidor! Na ausência do Comandante quem leva és tu!”. O Chic Jockey defende-se como pode, e atira-lhe com o gira-discos. o Assador-mor persegue por sua vez o Chic-Jockey com o fogareiro aceso, o 2º (e único) Remador com o remo, o Toca o Badalo com o badalo, o 1º Cabo-de-serviço-à-pipa com o barril, o Decano com a bobine que contém o último filme de Manuel de Oliveira, o Cabo de Sinais faz sinais de fumo, o Protocolo arrepela-se à beira do descontrole, o Intelectual continua a dormir profundamente. Está consumado o motim.
Depois da refrega e das feridas convenientemente suturadas pela eficaz agulha de tricot da Gaivota Decana, o 1º Cabo-de-serviço-à-pipa faz saltar a rolha do primeiro garrafão da manhã o que acorda o Intelectual, o Assador-mor prepara a grelhada escamando uma taínha, e toda a tripulação sem excepção se reúne no convés enquanto o navio navega uma vez mais, à deriva.
A um sinal imperceptível que só os tripulantes conhecem, todos se levantam de copo cheio na mão e bradam em uníssono antes de o esvaziar de um só trago:
“- Que se foda o Comandante!”

quinta-feira, fevereiro 21, 2008

O barco já mete água e o Comandante continua em parte incerta II

O Intelectual da Tripulação esvazia a 3ª garrafa de bagaço enquanto lê pela 346ª vez o Compêndio de Filosofia do 6º ano antigo. Realmente só etilizado se consegue ler tamanho bacamarte. O Tóca-o-Badalo toca mesmo o badalo e o Intelectual fecha o compêndio, marcando a última página de leitura com o sabre ferrugento do Comandante. Como é sabido, o Comandante continua em parte incerta, e esta incerteza deixa a Tripulação à beira do desperdício. O Pubic Relations recorta a foto do meio da “Play-Boy” de 1969, o Cabo de Sinais alivia a tensão contando as barbatanas de tubarão que cercam o navio, o Decano tenta convencer o 1º Cabo-de-serviço-à-pipa que o David Lynch é um realizador “fabuloso”, o Timoneiro acordou mal disposto e o 2º (e único) Remador ainda está de ressaca. O único que se safa é o Protocolo, que finge dirigir o barco na ausência do Comandante. Desde Singapura que não sopra um peido de vento, o mar umas vezes parece estar chão, noutras parece encrespado mas é só a fingir. A gaivota da proa alisa as penas com o bico enquanto o Assador-mor (que até este momento ninguém sabia onde estava e o que fazia) a mira com olhar guloso e começa a preparar o assador. De repente alguém grita “Terràvista!” e todos olham para todos à procura do autor. Como ninguém se acusa os olhares sobem para o cesto da gávea e alguém (creio que o Timoneiro) pergunta “Quem falta? Se não falta ninguém ou é o Comandante ou temos um clandestino a bordo!”. De imediato o plano de emergência é accionado com rigor. A Protecção Civil da Tripulação composta pelo Pubic Relations, pelo Intelectual, pelo Protocolo e pelo Toca-o-Badalo forma no convés e o Toca-o-Badalo toca mesmo o badalo com estrondo.
A comissão liquidatária da Tripulação composta pelo Timoneiro, pelo Cabo de Sinais e pelo 2º (e único) Remador convoca uma reunião de emergência para dali a três dias com o fim de resolver a seguinte questão: confirma-se primeiro que há mesmo terra nas proximidades ou vamos tentar descobrir quem se esconde no cesto da gávea?
A Protecção Civil passa-se dos carretos e carrega à bastonada sobre a comissão liquidatária para acelerar os actos. Depois da refrega, dos olhos negros, dos braços partidos e dos curativos à base do bagaço do Intelectual, a reunião fica decidida para daí a dois dias. O 1º Cabo de Serviço à Pipa ainda tenta protestar mas é de imediato acorrentado e lançado no porão. Para comemorar a Tripulação resolve marcar um jantar em conjunto, já com os adiamentos pré-definidos nos dias 3, 14, e 23. Em definitivo o jantar ficará para depois dessas datas.
O Assador-mor abre mais um garrafão de tinto e os brindes sucedem-se.
Entretanto lá em cima no cesto da gávea, a Gaivota Decana exita entre dar-se ao conhecimento ou esvoaçar dali para fora. Pensando melhor, vai mas é continuar a ler “O Sermão de S. António aos Peixes”.
Ainda há muita terra para desbravar.

quarta-feira, fevereiro 20, 2008

O barco já mete água e o Comandante continua em parte incerta





O Timoneiro consulta a bússula e, por Neptuno, alguém roubou o ponteiro. O Timoneiro grita, esbaforido. A gaivota que se empoleirava na proa desde que saímos de Singapura grasna de susto e voa largando penas pelo ar. O Assador-mor interrompe a enésima tentativa de pegar fogo ao carvão do assador e pragueja sem contemplações. O chicharro que espera a sua vez de ir para a grelha começa a cheirar mal. O Protocolo sobe a escada do portaló e chama a atenção dos tripulantes que palavras obscenas não são permitidas a bordo. O Timoneiro faz-lhe um manguito e manda-o para o caralho. Entretanto a cabeça do 2º (e único) remador assoma na abertura do porão e de olhos esbugalhados ameaça os presentes de retaliação caso o barco não chegue inteiro a Cuba. O Assador-mor atira-lhe com uma garrafa de cerveja para o calar. O Cabo de Sinais resolve intervir e chama o Pubic-Relations que limpa a arma no camarote. O mar começa a ficar bravo, pelo menos dentro do navio. O 2º (e único) Remador salta fora do porão de remo em riste na mão direita e garrafa de cerveja na mão esquerda e jura por Baco que parte aquela merda toda. O Decano interrompe os exercícios físicos e ameaça os presentes com mais um filme do Ingmar Bergman. O Pubic-Relations pega na arma que afinal não passa de um canivete suiço, abre o saca-rolhas e aponta-o ao Decano. O Cabo de Sinais tenta pôr água na fervura mas entretanto o Assador-mor apossa-se do saca-rolhas e abre o primeiro garrafão de tinto da manhã. O som da rolha a saltar parece acalmar todos os presentes, e até a gaivota da proa resolve voltar. Está feita a primeira rodada do dia. O 1º cabo-de-serviço-à pipa que dormitava no cesto da gávea mergulha lá de cima e cai no convés com estrondo. Solta um tal chorrilho de asneiras que o Protocolo tem de tapar os ouvidos com a cera de encerar o convés. O 1º cabo-de-serviço-à-pipa levanta-se a custo, pega no garrafão e esvasia-o de um trago. O Timoneiro diz-lhe que é uma falta de respeito. O Cabo de Sinais concorda, o Assador-mor encolhe os ombros, o 2º (e único) Remador afasta-se, o Decano adormece. Está feito o 1º turno da manhã. Logo à tarde iremos procurar o ladrão do ponteiro da bússula e obrigá-lo a pagar uma rodada. Isto de andar com o barco à deriva no mar bravio não é nada recomendável. Que o diga o Comandante, lá onde estiver, que foi assim que se tornou abstémio e com tiques de vegetariano.

sexta-feira, fevereiro 15, 2008

Apresento-vos a minha prima Ossétia




Ossétia Vanessa, para ser mais preciso, nome que ostenta desde a proveta idade de 2 semanas e 3 dias, quando ainda era muito mirradinha. A prima tem sido nos últimos tempos o meu refúgio, o meu consolo, o meu comprimido anti-stress. Quando tenho de ir ao supermercado abastecer para a semana, a prima oferece-se para ajudar porque sabe a seca que aquilo é para mim. Só a sua presença me salva de ataques de violência demente para com os utentes, que tal como eu reabastecem a despensa lá de casa. Se não fosse ela, há muito que a gorda balofa que empurra o carrinho cheio de coca-colas para cima de mim teria levado um biqueiro nos dentes, a bétinha que berra ao telemóvel há muito que o teria a digerir no intestino, o sacana do velho que exige os melhores carapaus com mau modo há muito que teria um rabo de chicharro a sair-lhe pelo traseiro. E por aí fora, vocês sabem do que eu estou a falar. Acontece que a avó Urzelina se lesionou a jogar rugby vai para 2 meses e tenho de ser eu a fazer as compras cá de casa. Pouco acostumado a estas coisas, não sei qual o melhor produto para levar, nem o mais barato, nem essas tretas de relação qualidade-preço. Felizmente que existe a prima Ossétia, a minha DECO de referência, um deleite para os olhos, um maná para todos os sentidos. A prima sabe qual é o melhor detergente, a carne mais tenra, o esparquete mais saboroso, a vaselina mais escorregadia, o papel higiénico mais absorvente. E tudo sempre, sempre do mais barato. Para a prima Ossétia inflação é coisa que não existe. Ou então sou eu que estou cego de todo, que já me perco nas suas curvas, que acho que tudo o que ela faz é bem feito, que tudo o que compra sai barato. Faz-me lembrar o Fagundes, nosso vizinho cá do bairro, escriturário num departamento qualquer de finanças vai para 15 anos, militante do PS, fervoroso apoiante e defensor do engenheiro. Para ele a inflação também não existe, ou se existe é um mal necessário, a saúde está muito bem e se não está melhor agora há-de estar um dia, se o primeiro foi engenheiro ao domingo é porque sim, se assinou projectos alheios é porque sabia assinar, nunca mente nem nunca mentiu, apenas não disse toda a verdade, a ministra da educação é a Angelina Jolie e o Mário Lino é o Popeye the sailor man. É possível que tal como eu o homem não distinga a realidade da ficção, mas ao menos eu tenho a prima Ossétia e ele fica com o Manuel Pinho.
Se por acaso não gastamos todo o dinheiro que a avó nos dá para as compras, eu e a rica prima alambazamo-nos em cheeseburgers com muita nhanha lá dentro e voltamos felizes para casa onde a avó nos aguarda a controlar o relógio, não vá o diabo tecê-las. Mas ainda bem que a inflação existe. Se nós poupássemos muito a esta hora tanto eu como a prima Ossétia estaríamos a abanar as banhas e os colesteróis de tanto cheeseburger, tal como o Fagundes militante do PS que de tanto abusar da militância ficou tetraplégico da massa cinzenta, ou seja, fugiram-lhe os triglicéridos para o cérebro, entupiu o esgoto dos neurónios, e ficou com uma fixação doentia no António Vitorino.
Abençoada prima Ossétia, vocês não sabem o que perdem!

segunda-feira, fevereiro 11, 2008

A Desaparecida




Sempre pensei que Portugal merecia ter os seus heróis. Não aqueles da dita História, tipo Farinha Amparo, como Nuno Álvares Pereira ou Vasco da Gama. Mas um herói a sério, que enfrente o perigo de olhos nos olhos e com um sorriso de desdém, que ponha a honra pessoal acima de qualquer garina que se atravesse no caminho, que seja impoluto e rápido a sacar do verbo fácil, com resposta pronta e certezas várias, enquanto prega dois tiros em cheio no inimigo. Alguém como John Wayne, membro da Legião Americana enquanto vivo, símbolo maior de uma certa época de afirmação americana no mundo, actor popular e fetiche de muitos westerns.
Mas quem mais se aproxima de John Wayne é o ex-judite Moita Flores. É afirmativo, sabe quem são os culpados, está cheio de certezas, conhece bem os inimigos. Nunca pertenceu à Legião Americana mas foi eleito nas listas do PSD, o que bem vistas as coisas, é muito mais in que ser legionário. O paralelo com o actor americano é evidente: em “A Desaparecida” (The Searchers), Wayne vasculha o Oeste americano à procura da sobrinha raptada pelos comanches. Flores opina em frente às câmaras de TV as suas certezas sobre o desaparecimento de Madeleine Mcann. Uma criança desaparecida entrepõe-se entre ambos. Coincidências? Wayne massacrava alguns índios em muitos filme onde entrou. Flores massacrou-nos com as suas opiniões de pseudo-especialista e Sherlock Holmes de vão de escada.
No final a porta fecha-se sobre o cow-boy solitário que resgata a sobrinha. Alguém vai bater com a porta em cheio no Moita Flores quando o processo Mcann for arquivado.
Apenas uma diferença: um é herói de pacotilha, outro era apenas a fingir mas gostávamos muito.


A Desaparecida (The Searchers) – 1956 – de John Ford, com John Wayne, Jeffrey Hunter e Vera Miles

Meu Nome é Ninguém




Não sei de quem é a culpa nem me interessa. Excelsos pensadores de aqui e de sempre esmifraram-se para encontrar um culpado, um só culpado que fosse. Nem Afonso Henriques, nem a puta da mãe dele, nem os espanhóis, nem a Inês de Castro, nem o picolho do D. Sebastião, nem o afectado D. Miguel, nem o balofo rei D. Carlos, nem o bafiento Salazar, nem o Partido Comunista, nem o Cavaco, nem o bochechas, nem o Sócrates, nem o Pinto da Costa, nem os juízes, nem os doutores, nem os engenheiros, nem o José Cid. Podem ser todos eles e mais alguns, como pode não ser ninguém. E aqui é que bate o ponto. NINGUÉM é culpado. O que me leva a concluir que somos todos culpados. Culpados como povo, que levamos porrada e gostamos, que nos cortam na ração e gostamos, que nos apertam a trela e gostamos. O que faz de nós fiés e pulguentos animais domésticos para todo o serviço. E os animais não têm sentimento de culpa. Tal como NINGUÉM que eu conheça tem. Nem eu próprio.

Meu Nome é Ninguém (1973) de Tonino Valerii e Sergio Leone, com Terence Hill e Henry Fonda. Música de Ennio Morricone (claro!)