domingo, janeiro 27, 2008

O Canto do Cisne da CM

Baseando-nos na teoria das classes, poderá dizer-se que a classe média (CM) é aquela que é composta pelo conjunto de indivíduos de que qualquer estado vive através dos impostos cobrados. Esta denominação, transportada para a realidade portuguesa, passa a englobar os Zé-Pagantes e toma o nome de classe da merda (CM), onde os irremediavelmente pobres não pagam grande parte dos tais impostos por não terem com quê, e os escandalosamente ricos também não os pagam por saberem muito bem como fugir-lhes.
Sabemos pela ciência política, em oposição à ciência da politiquice, que a gestão dos humores da CM é que tem vindo a moldar a geografia política da Europa em particular, e do mundo, no geral. Igualmente sabemos que nos bastidores, quem mexe os cordelinhos deste mundo com base na sapiência e matreirice, de há muito entendeu perfeitamente que se for capaz de lhe determinar esses humores, os tem a vir comer-lhe à mão.
Por demais evidente, o sonho de qualquer pateta treinado para Napoleão é ter essa CM bem domesticada, tendo esse povinho a seus pés.
As receitas são conhecidas: cultura pouca; dinheiro e tempo para devaneios, menos ainda; impostos, tantos; medos, muitos. Quanto ao dinheiro, claro que estamos a falar do metal sonante, o pilim à portuguesa, que o dinheirito a crédito, quanto maior a fartura, maior a escravidão, sempre no auge da proporção.
Aquilo a que assistimos por esse mundo fora é às mais desvairadas tentativas de abafar ou mesmo anular uma classe média que foi construindo a sua humanidade num conjunto de preceitos éticos resumidamente consubstanciados na Declaração Universal dos Direitos do Homem, e no caso lusitano, com uma especial trampolineira traquinice.
Nos tempos modernos, os aprendizes de feiticeiro trocaram a vassoura pelo dólar e o euro, conduzindo a CM à instabilidade, ao salve-se quem puder, à busca desenfreada de padrinhos, mais ou menos de índole mafiosa, e protectores, mais ou menos opus dei ou dedicados a outras diversas seitas.
Também já muitos o afirmaram com muito mais propriedade intelectual e científica do que eu, que o esmagamento das classes intermédias obrigam ao engrossar das fileiras daqueles que já nada têm a perder, o que fará, mais tarde ou mais cedo, com que as elites da treta e do sacrossanto lucro possam vir a dar com os burrinhos na água, pois que a lei da selva então será como o sol, quando nasce é para todos.
O que me chateia mesmo é que, no final desta cegada, esse fenómeno social não seja nada porreiro e todos comam pela medida grande, entre os quais aqueles que até, não sendo bruxos, admitem esta clarividência. Entretanto, cantando e rindo, lá vamos nós levados, levados sim.
Ele há coisas do caralho, não há?

Nota: baseado numa crónica de Jorge Castro, 26 de Janeiro de 2008, revista do Público.

sexta-feira, janeiro 25, 2008

Isto assim é que está mesmo fixe

Nunca me passaria pela cabeça elogiar o Santana nem que ele se tornasse eremita no Nepal para o resto da vida. Mas qualquer patacoada do senhor que fuja ao seu comportamento dito normal já merece destaque do poeta Alegre que mais do que nunca me parece fingir que anda a fazer oposição ao Sócras, e do Vasquinho que deve andar a beber uísque marado. Aliás, qualquer atitude, escrita ou verborreia destes dois provocam-me a mesma sensação de ir ao cinema e ver um filme sobre adolescentes com o cio por engano.
Tenham um bom fim de semana (se puderem!)

quarta-feira, janeiro 23, 2008

Reforma antecipada




Que doença se esconde por detrás deste rosto bronzeado, desta pele bem cuidada, deste ar saudável de quem passa a vida a trabalhar a dar umas tacadas de golfe, umas partidas de ténis com os amigos, umas reuniões administrativas decerto extenuantes lá pelo BCP, apesar de não lhe faltar a secretária que tudo aponta e que tudo sabe, sim, que doença se esconde dentro da fatiota Armani e dos óculos Calvin Klein? E como é que a junta médica deu com ela, essa farsante doença, que atira com o senhor para a reforma ainda na flor da idade? Será um panaricio? Espinhela caída? HIV ou paralisia cerebral?
Seja como que for os quase 10 milhões de órios a somar aos 35 mil mensais são bem merecidos e é pena não serem mais, assim o senhor já não iria trabalhar como consultor depois de reformado, coitado. Fico deveras consternado com a sobrevivência deste rapazinho quando uma tipa ainda mais na flor da idade diz que tem uma doença degenerativa qualquer que a impede de trabalhar pró patrão, e que a impede de se arrumar sem a ajuda de alguém, e que vê recusada a reforma por invalidez por uma junta médica que felizmente está atenta, e desconfia com toda a legitimidade da doença desta senhora por ser tão evidente, tão evidente, que é mesmo para desconfiar. Ao contrário, o sr. dr. Teixeira Pinto não apresenta sinais exteriores de doença, o que por si só é um factor a ter em conta na sua honestidade. A não ser que a verdadeira razão seja algum hematoma causado pelo aperto do silício, essas coisas que alguns acólitos da Opus Dei têm de usar na coxa e que apertam quando são tentados pelo demónio ou faltam à missa das 7 por causa do jantar de despedida do confrade Jardim Gonçalves. Mas isso são só alguns, porque há-de haver outros que em vez de silício usam liga elástica com uma rosinha, e outros não usam absolutamente nada mas dizem que sofrem muito pelos males do mundo.
Se por acaso a junta médica ceder e enviar a senhora que diz que está inválida para a reforma, então eu deixarei de acreditar de vez neste país, em juntas médicas e no sr. Ministro da Saúde que tem feito um trabalho notável em prol da medicina privada que infelizmente ainda não tem o necessário status-quo para curar o sr. dr. Paulo Teixeira Pinto. O homem é um senhor, carago, merece pelo menos uma clínica em Londres ou um spa em Bora-Bora.

segunda-feira, janeiro 21, 2008

As ameaças são para levar a sério

Enquanto a avó Urzelina ensina o gato Matias a soletrar “jamé” em francês, eu e a minha prima Ossétia concentramo-nos em mais uma aula práctica de anatomia táctil, ou seja, “análise digital da textura da carne”. Nada nos pode distrair desta paz familiar e interactiva, salvo quando gato Matias gagueja ou quando o Presidente sai da TV e entra por ali dentro sem respeito nenhum e diz que as “ameaças são para levar a sério”. Tivesse eu uns cavacos à mão e o tipo saía dali com o rabo entre as pernas e a cuspir bolo-rei que nem um herói. A prima Ossétia ficou de tal maneira alarmada que a sua pele ficou galinácea, o gato arqueou o tronco, eriçou o pê-lo e sussurrou fff......-se, a avó Urzelina ainda teve discernimento para pegar no arcabuz e quando se preparava para encher o traseiro daquele pavão de chumbo, o Elias assomou à janela sorridente e disse todo lampeiro: “- Tenham calma! Não vêm que é tudo a fingir? Depois da Presidência portuguesa da UE há que criar mais fait-divers, ´tão a ver?”.
Não é que desconfiasse, mas já estava à espera de uma cena destas. Um gajo fica calejado pá.
Para compensar a avó começou a ensinar ao gato Matias como se diz “fait-divers” em francês, e eu e a prima Ossétia resolvemos aumentar o número de prácticas de anatomia. Quanto ao Elias, que além daquilo que é ainda ganha umas coroas como bufo da ASAE, resolveu emigrar para Alcochete, destino provável da maioria das aves de arribação cá do burgo.
Quanto ao Presidente, o gajo deixou de chatear: desligámos o televisor.
As ameaças são para levar a sério, pois então!

quarta-feira, janeiro 16, 2008

A crise no BCP

“Há telenovelas que só fazem sentido ao fim de 300 episódios”, confidencia-me a prima Ossétia expirando misteriosamente o fumo da ganza. “Querido primo, o melhor ainda está para vir.” E lá me aconchega por entre os seus entrefolhos, como ela tão bem sabe.

Voltei, depois logo se vê

Não, não fui mobilizado para o Iraque, não arranjei um tacho no BCP, não fui encerrado pela ASAE. Apenas não me apetece, pronto. Um gajo farta-se desta badalhoquice, Ota prá aqui, Alchochete práli, puxa daqui, empurra dali, ora sai mais um estudo a pedido do freguês, putaquepariuestamerdatoda.
Dou por mim a descer a Avenida da Liberdade a falar sózinho, com o pessoal a deixar uma distância respeitável da minha pessoa, sei lá porquê, será da roupa suja e coçada, dos sapatos sem sola, dos peúgos rotos, do cabelo a precisar de lavagem desde o Natal de 2003? Pôrra, pá, eu ainda tenho alguma dignidade, ainda uso gravata, ou melhor meia-gravata, a outra metade foi roída pelos ratos do esgoto. Pois é, a minha sanidade mental foi-se junto com os impostos, com os SAP´s encerrados, com as urgências deslocadas, com as reformas do ensino, com as queixas da ASAE, e ando aqui ao sabor do vento e da chuva avenida acima e avenida abaixo, a perguntar ao polícia da esquina qual o significado da palavra liberdade e porque raio é que esta merda de sítio tem esse nome. E o chui puxa do cassetete, dá-lhe algumas voltas entre os dedos, e ameaça: “Ah, sacana, se te apanho a fumar!...”
E estas são só as pequenas razões porque abandonei temporáriamente este blog, que felizmente para mim não é lido por ninguém, senão já andava tudo como eu, com a base de dados toda baralhada. Um gajo não é de ferro, foda-se!

quinta-feira, janeiro 03, 2008

O ADMIRÁVEL MUNDO NOVO.... dos pequeninos

Ordem para matar o Serviço Nacional de Saúde? Uma década atrás o SNS inglês era apontado como exemplo a seguir por todo o mundo. Thatcher e outros liquidaram-no. Os índices de qualidade na prestação de cuidados de saúde caíram a pique. Este fenómeno parece estar a contagiar o nosso país com a complacência, para não ser mais agressivo, dos nossos dirigentes políticos. As clínicas privadas - e que fique claro que é um direito que têm - proliferam. Arrastam os melhores profissionais formados nos hospitais públicos. Também é compreensível. Melhores instalações, melhores salários, muitas vezes incentivos a sério e pondo os médicos a fazer o que gostam. Tratar os doentes e não horas a fio em reuniões improdutivas e afogados em papelada.
Os profissionais que abandonam o sector público são sempre os melhores. Custaram milhares e milhares de euros ao estado. Saem a custo zero. Deixam autênticas lacunas de competência que poderão levar dezenas de anos a preencher! Saem em especial os especialistas de áreas fundamentais. Cirurgias, medicina interna, imagiologia, otorrinolaringologia, cardiologia de intervenção, intensivistas, etc.
...O país tem a honra de ter como responsável pela erradicação da tuberculose no mundo o presidente Jorge Sampaio (quis o destino que seja o filho do senhor que criou em Portugal um dos programas nacionais de vacinação mais efecazes do mundo). O facto é que de repente me chegam algumas mães ao consultório com os pequeninos sem a vacina do BCG. Dizem-me que no centro de saúde ou no hospital onde as crianças nasceram lhes foi dito para aguardar. Não havia vacina!.....Em 8 de Fevereiro de 2006 a Circular Informativa da DGS nº 5/DT dá orientações técnicas para a vacinação contra a doença invasiva vulgo designada por vacina da meningite pneumocócica. Esta vacina está no mercado há cerca de sete anos. É muito eficaz. É cara. Cada dose custa cerca de um sexto do salário mínimo nacional proposto para 2008. São necessárias quatro doses para a criança ficar devidamente vacinada. Má notícia. Ainda nem sequer é comparticipada.
Depois de algum tempo, mais vale tarde do que nunca, o primeiro-ministro anunciou na AR que a vacina contra o cancro do colo do útero iria entrar para o Programa Nacional de Vacinação. Execelente notícia. Será lá para Setembro de 2008 ! Por que razão? O papilomavírus irá de férias?
...Com a legítima abertura de clínicas privadas com serviços de obstetrícia e neonatologia os poucos profissionais dos serviços públicos estão a ir embora. No privado dão-lhes melhores condições de trabalho (o Estado há muito congela carreiras e salários). Já são poucos os que trabalham no sector público. Estão em grande parte envelhecidos e uma boa parte completamente frustrados. Má notícia! O futuro de um sector de êxito criado, é bom lembrar, por Leonor Beleza, pode entrar em ruptura. A percentagem dos portugueses que podem recorrer aos serviços privados ainda só anda à volta dos dez por cento. Fazem ideia de quanto custa tratar em condições dignas um pequenino prematuro de mil gramas? Varia conforme as patologias. Mas nunca menos de vinte a 25 mil euros, por dois meses de internamento!...
O anterior foi publicado no suplemento Notícias Magazine de 30 Dez. 2007 pelo médico pediatra Octávio Cunha com o sugestivo título 2007: Ordem Para Matar.
Acrescento eu que assistimos à destruição vertiginosa do que levou anos a erguer, um Serviço Nacional de Saúde que, pese embora muitas lacunas e erros corrígiveis, poderia tender para melhor tratar da saúde aos portugueses numa perspectiva de serviço público fundamental.
São hospitais a fechar, serviços de urgências médicas que encerram, centros de atendimento público que terminam, serviços de especialidades que são tranferidos com o seu inevitável desmantelamento nos locais existentes. E muito destes até com as melhores referências e recentemente instalados ou remodelados.
Será que os interesses privados, económicos e não só, são razão suficiente para fechar unidades de cuidados médicos em qualquer parte do mundo? Será que o encerramento de serviços de utilidade pública no âmbito dos cuidados de saúde é admissível apenas por uma simples conta de somar e subtrair euros, e mesmo assim mais do que duvidosa?
Pois cá para mim, nem que um serviço, hospital ou centro passe a maior parte do ano às moscas não chega sequer para justificar uma redução nos rolos de gaze, quanto mais o seu fecho. A isto chamo com todas as letras: Vergonhoso! E a quem toma tais decisões, apelido textualmente de A.P.M. (Assassinos Profissionais Mercenários).
Mas tudo isto também tem a ver com a recente entrada em vigôr da lei do fumo.
Se é de louvar qualquer iniciativa que possa contribuir para a diminuição de hábitos tabagistas, já é de repudiar qualquer iniciativa que se imponha pela proibição por lei. De proibição em proibição se chegará rápidamente ao é proibido viver excepto se de acordo com os elevados valores de alguns senhores do mundo.
Mas no estado actual do mundo, ou de grande parte dele, o império amerdicano (mais uma vez) tem a iniciativa, continuando a sacrossanta cruzada em nome do bem sacrificando os maus definidos por parâmetros de fundamentalismos e muitos outros ismos! Primeiro exporta e fomenta o vício, para daí retirar enormes proveitos económicos, para depois os expurgar sem que se auto-retrate de mea culpa. Lá por em Nova Iorque já de há tempos ser proibido fumar, segundo consta, o que é que eu tenho a ver com isso ao ponto de aqui ser tratado de forma idêntica? Não é por alguns quererem ser animais irracionais que eu também o queira ser. Ainda por cima vindo o exemplo desses tais amerdicanos que são os responsáveis por, entre muitas outras coisas terríveis da actualidade, 59 % das armas destinadas a países da América Latina, 46% a países do Norte de África e Médio Oriente e 40% aos países da Ásia Pacífico, sendo mesmo os maiores exportadores de armamento a quem cabe uma fatia de um terço das armas existentes fora dos EUA, e isto segundo dados de 2002, imagine-se hoje! E são esses que se arvoram em garantes da felicidade humana? Ou antes devem ser apelidados dos garantes da miséria humana?
Mas, mesmo supondo que a lei agora em vigôr não foi consequência desse exemplo amerdicano levado à prática, seria menos incorrecto as autoridades políticas deste país planearem as normas e campanhas que, sem prejuizo de ninguém e muito menos de uma forma proibitiva, levasse a uma redução aceitável dos hábitos de consumo tabagista. Por exemplo, o aumento dos custos, a diminuição gradual dos postos de venda, a par da obrigatoriedade de serem respeitados todos os cidadãos, quer fumadores quer não. Para isso bastava regular no sentido de impôr normas de funcionamento de espaços públicos onde as liberdades de cada um fossem respeitadas, atendendo às diversas funcionalidades e locais. Alguém deixou de aplaudir as medidas de não ser permitido fumar nos transportes públicos ou nos hospitais ou em espaços fechados para a prática desportiva? Não, apenas porque é do senso comum e todos compreendem a necessidade da medida por falta de alternativa possível e real, embora para transportes de longo curso devesse ser criado obrigatóriamente espaços com as condições adequadas para os tais agarrados ao fumo. Veja-se o caso do transporte aéreo, onde seria muito fácil a criação de tais áreas restrictas, mas suponho que já todos sabem quanto encaixam as companhias aéreas apenas por não serem obrigadas a gastar uns tostões a mais em cada viagem com o combustível necessário ao funcionamento dos aparelhos destinado a esse fim.
Agora, das 24 horas de 2007 para as zero de 2008, passar a impôr a proibição de fumar na tasca do Ti Manel das Berças onde o seu primo e compadre todos os dias vai beber o seu copito e dar umas cigarradas, não faz sentido a não ser que se pretenda desenvolver conflitos inultrapassáveis. E a lei, tanto quanto eu saiba num estado dito de direito, é de aplicação cega e universal. Já para não falar no nível dos funcionários que vão fiscalizar o seu cumprimento, que quanto a mim e pelos resultados recentemente observados, se encontram ao nível de uma cave.
Compreende-se que em serviços públicos, por um critério até de exemplo, tal inibição de fumegar seja aceitável, embora a custo reduzido e sempre que possível, com a criação de espaços restritos para os agarrados ao vício do tabaco. Compreende-se que em ambientes de serviços de refeições de dimensões maiores ou outros de características similares, ou espaços comerciais de grandes dimensões tipo centros comerciais, onde os não fumadores são obrigados a levar com o fumo dos outros nas suas andanças do dia a dia, deveria impôr-se a criação de áreas para fumadores, só que aqui seria muito mais inteligente definir regras para os estabelecimentos já em funcionamento, no tipo de haver um período confortável para que os seus donos pudessem planear os custos que necessáriamente as alterações obrigam para a criação de espaços para fumadores, sendo que até lá a decisão seria da inteira responsabilidade dos seus donos, funcionando aqui a lei da oferta como garante da decisão mais acertada. Para os novos estabelecimento do género a abrir, então sim, deveria ser dada prioridade de autorização de funcionamento aos que, à partida, tivessem tais espaços devidamente acautelados, sendo que o prazo para todos os que já têm processos em curso fosse mais apertado. Para os tipos de cafés ou de pequenas tascas, mesmo que com o serviço de comidas, aí a decisão deveria ser apenas dos seus donos. Quem não se sinta bem, não usa.
Já no caso de serviços de pura diversão tipo bares, discotecas, casinos, salas de jogos ( ou até de alterne..), o critério deveria ser muito menos exigente, funcionando a lei da oferta e da procura como garante supremo do êxito. Afinal, só vai a determinado ambiente de diversão quem o quer, quando o quer e da forma que o quer frequentar.
Atente-se, por exemplo, como poderão sobreviver apenas com o negócio que sempre os sustentou, aquele pequeno comerciante que serve umas bicas, ou uns copitos e uns pastéis de bacalhau ou mesmo meia dúzia de refeições diárias ao pessoal trabalhador, se quizer optar por permitir fumadores no seu estabelecimento? Quantos meses de trabalho poderão pagar o projecto, equipamentos e alterações necessárias para instalar um sistema de renovação do ar de acordo com a legislação? Pensem que nunca menos de dez mil euros terá de dispender. Então qual a solução? Obrigatóriamente o não permitir fumar. Agora vejam o caso do tal Ti Manel das Berças, que são aos milhares por este país fora. Das duas três, ou tem a sorte de nunca ser visitado pelos GNRs ou outros inspectores, ou consegue suborná-los devidamente ou apanha tantas multas que só tem um destino, dedicar-se à pesca, e mesmo assim só se tiver comprado a licença respectiva e mesmo assim, só se não for apanhado com mais de meia dúzia de carapaus face à lei que saiu o ano passado. Claro que, nesse momento do campeonato, o desespero para alimentar a família é tão grande que pode optar por dedicar-se ao comércio da droga, pois aí já as mafias o protejem!
E isto apenas para dar algumas ideias de que proibir sem atender a critérios sérios e reais é meio caminho andado para, de hoje para amanhã, também com a história do tal bem comum, vir a ser proibido o consumo de bebidas alcoólicas pelas consequências que o seu uso exagerado pode causar ou o incómodo que é a presença de alguns embriagados, ou a ser proibido o uso de telemóveis pelo ruído incomodativo que estes produzem quando da chegada de uma chamada, ou mesmo até a presença de crianças de tenra idade em locais de uso público, pelo ruído dos seus estridentes gritos, a não ser, claro se com ançaimes! Rídiculo, não é? À pois é! Mas atentem só que, também com o deslavado argumento da saúde pública, é bem recente mais uma proibição: É proibido o uso dos históricos galheteiros em restaurantes. Imaginem quanto ganharam de mão beijada os comerciantes e produtores do vazelhame de vidro, ainda por cima sabendo que estamos a léguas do reciclável!
De proibição em proibição, o admirável mundo novo se vai tornando realidade!
Não me admirarei se, daqui a uns tempos, ainda sou mandado a redescobrir o caminho marítimo para a Índia num barco a remos, como castigo por ter puxado de um cigarro em plena via pública. E nem quero imaginar o que me poderá acontecer se acendesse um puro cubano!
Mas afinal em que ficamos? Por um lado, por razões de saúde pública, aí está a lei do fumo de cigarros, mas por outro, a saúde pública já nada tem a ver com a melhoria dos seus cuidados, fechando-se hospitais e similares. E que dizer das emissões poluentes dos transportes públicos e privados? Só quem não experimentou passear-se pela Baixa lisboeta em hora de ponta é que não imagina as doses de tóxicos que ingere a cada hora, e porque não proibir, com a urgência e determinação que a lei agora saída impõe, a circulação de veiculos poluentes? E isto para ser benévolo, pois também deveriam já ter sido de há muito proibidos os transportes que produzem qualquer tipo de poluição. Só que aqui todos sabemos que, afinal, é sempre o económico que comanda este mundo louco em que eu estou metido.
E afinal, toda esta panóplia de coisas, apenas pode ter uma conclusão: Os responsáveis políticos tudo estão a fazer para TRATAR DA SAÚDE AO PESSOAL !
Digo e reafirmo, tratar da saúde, não tratar da doença!!
Àh é? Saúde para todos? Afinal, o que tu queres sei eu!
Por mim, que até queria deixar de fumar, agora é que vou passar a ser uma chaminé andante. Só cá por coisas!

segunda-feira, dezembro 10, 2007

A Cimeira



É assim:
Primeiro o pessoal faz-se ao mar à procura do sustento que não tem em terra, leva chicotada, morre de escorbuto, afoga-se, apanha com o Adamastor que não tem culpa nenhuma, nem ele nem o Camões, é promovido a herói à conta das companhias das Índias e da sacrossanta igreja católica que, à força, engorda o seu séquito de convertidos e cristãos novos, deixa por lá alguns escravos brancos à conta de uns tantos senhores, trás para cá alguns escravos pretos à conta dos mesmos senhores, cria um suposto império de Lisboa às Molucas, atafulha naus remendadas com especiarias que vende a preço de ouro nas praças europeias, os senhores ricos ficam mais ricos, os pobres ficam, como é normal, mais pobres. Depois vêm espanhóis sequiosos de ouro, ingleses, holandeses e franceses especialistas em pirataria, e temos o baile armado. Passam séculos e a rapina continua,, uns com sucesso outros a fingir à conta de alguns massacres e uns tantos extermínios. Depois a rapaziada de lá farta-se da festa, encontra alguns aliados pouco recomendáveis, e com muito sangue e muita luta obrigam o europeu a refugiar-se na latrina de onde nunca devia ter saído. E os novos senhores substituem os antigos, mas desta vez bem encapotados por sobas autóctones. O festim continua e o baile continua armado. Com mais ou menos massacre, mais ou menos extermínio, o preto faz-se ao mar à procura do eldorado que pensa existir lá mais para o norte na terra da gente branca. E agora são eles que se afogam e morrem de fome e frio, sem qualquer valor épico ou um Camões que lhes cante os feitos.
Depois os tais ditos senhores (os de sempre, per seculum seculorum) incham de boas intenções, escondem a hipocrisia no teatro dos salamaleques, e recebem os sobas supostamente de peito aberto e com a factura das metralhadoras no bolso das calças.
As austeras esposas dos sobas aproveitam a deixa e engordam o enxoval com a lingerie das casas da moda, enquanto os maridos aproveitam as migalhas do festim enquanto ele durar.
Depois volta tudo ao mesmo, apesar dos pregões de sucesso, das mentiras disfarçadas de falsas esperanças, dos brindes de veneno e da fotografia de grupo, como um casamento que se sabe à partida mal sucedido.
Havemos de nos encontrar um dia, quando o homem regredir finalmente para primata
e não houver nem mais uma migalha para disputar ou roubar.
Nessa altura ficará tudo mais evidente.

domingo, dezembro 09, 2007

CIMEIRA UE-ÁFRICA EM LISBOA

Acabou a cimeira UE-África. Que pena!
Que pena tenho, pois não é que o meu tv deu o prego há dias e o rádio não tem pilhas, e amanhã já teria condições para acompanhar os discursos dos chefes de estado onde, por certo, os da europa, com o Sócrates e o Cavaco incluídos, teriam gritado bem alto que são os grandes responsáveis pela mortandade diária de milhares de africanos, pela fome ou pelas armas que lhes vendem, para já não falar da responsabilidade pelas anexações a que os colonialismos recentes dos seus países os obrigaram a tornar o continente do mundo mais subdesenvolvido.
E os chefes dos estados de África a retratarem-se como sendo os maiores déspotas actuais e que têm fortunas incalculáveis que, à custa dos seus amigos europeus e amerdicanos, lhes vieram ter ao bolso, mas que de agora em diante iriam transferi-las para o bem daqueles pobres desgraçados de que são donos e senhores.
Mas vou ler isso nos jornais, por certo!

quarta-feira, dezembro 05, 2007

A Inversão do Papel do Estado

Com as desculpas antecipadas ao Timoneiro e ao Ukabdsinais por ser eu a publicar aqui o que me enviaram, aqui vai:
DN 03/12/07
A INVERSÃO DO PAPEL DO ESTADOJoão César das Neves, professor universitário
O futuro terá muita dificuldade em entender a nossa obsessão com o Estado. Esta é a época que mais teoriza sobre o papel das autoridades, onde os poderes públicos mais se esforçam por melhorar a vida dos cidadãos, mas onde existe a maior confusão, atropelo e ambiguidade nesses mesmos poderes. O Estado não faz o que deve e anda a meter-se onde não é chamado. Assistimos nos últimos tempos a um recuo evidente do Governo nas suas funções básicas. Ao mesmo tempo há funcionários, fiscais e técnicos a invadir a intimidade dos cidadãos em nome da segurança e bem-estar. Se isto continua em breve teremos uma inversão total da estrutura institucional.O mais surpreendente é que muitas mudanças básicas acontecem, não por razões ideológicas, de forma planeada ou segundo análises fundamentadas, mas por mero deslize. São consequências laterais de tácticas oportunistas, expedientes patetas ou golpes de conveniência. A tacanhez política está a ter efeitos radicais que dificilmente serão corrigidos.O recuo do Estado nas suas funções próprias é bastante evidente. Desesperado pelo défice, o Governo perde de vista o seu papel. A fúria de privatização há muito deixou de ter propósitos estruturais, para se tornar mero instrumento financeiro. Privatiza-se não o que se deve, mas o que rende. Como as corporações capturaram as funções que deveriam exercer, cada ministério trata mais de reivindicações de profissionais que do seu serviço ao povo.Um recente caso escandaloso é o das Estradas de Portugal. Entregou-se a uma sociedade anónima uma função essencial do Estado, a liberdade de circulação, pois estradas abertas constituem um direito fundamental de cidadania. Qual a razão? A bomba de relógio financeira das SCUT, criada na ilusão de obter dinheiro privado para infra-estruturas, está a explodir. Por isso entrou-se numa fuga para a frente, generalizando a abordagem. Quando o primeiro-ministro afirmou em 16 de Novembro que a nova empresa tem por objectivo a "sustentabilidade financeira", ele sabe que isso só será possível com uma qualquer forma sofisticada dos antigos bandoleiros dos atalhos.Enquanto aliena funções fundamentais, a sempre crescente máquina estatal atarefa-se a tratar da violência doméstica, inovação tecnológica, galheteiros nos restaurantes, embalagens de brinquedos. Proíbe o fumo, o ruído e o excesso de velocidade, promove o aborto e facilita o divórcio. Dizemos ser um país livre, mas é impossível a matança do porco, brindes no bolo-rei, ou termómetros de mercúrio.Tudo isto no meio de uma fúria legislativa, onde novas versões de diplomas surgem antes de secar a tinta nas anteriores. Um exemplo sugestivo, já que se fala de trânsito, é o Código da Estrada. O Estado, que se demite da gestão rodoviária, está cada vez mais enfiado com o condutor ao volante. Como andar de automóvel não muda há décadas, seria de esperar estabilidade nessa legislação fundamental que afecta toda a população. Pelo contrário, esse campo é um emaranhado de diplomas.Referindo apenas os principais, tínhamos um código, aprovado pelo Decreto-Lei n.º 114/94, de 3 de Maio, que foi depois revisto e republicado pelos DL 2/98, de 3/1, e 265-A/ 2001, de 28/9, e alterado pela Lei 20/2002, de 21/8. Então o Governo decidiu criar um novo Código, que aprovou pelo DL 44/2005, de 23/02. Desde então, nestes dois anos já foram publicados 26 novos diplomas que o complementam, corrigem e acrescentam. São quatro leis, cinco decretos-leis, dois decretos regulamentares, seis portarias e nove despachos. O site da Autoridade Nacional de Segurança Rodoviária, na secção Trânsito, tem um total de 46 diplomas que devemos conhecer cada vez que entramos num carro.O mais incrível é que os responsáveis não se dão conta de que esta profusão legislativa apenas manifesta a sua tolice, impotência e incapacidade. O Estado tornou-se uma galinha tonta, a correr em todos os sentidos. As gerações futuras vão divertir-se com este tempo infantil que acha que a lei resolve tudo mas não consegue decidir qual lei o deve fazer.

Resposta do Ukabdsinais:
Não posso deixar de dizer isto:

Este senhor César das Neves é um dos mais acérrimos fundamentalistas católicos que existem nesta merda de país. No referendo ao aborto deu a cara pelo não com
argumentos tais como genocídio de criancinhas, quem abortar vai para o inferno e coisas assim. Além disso pertenceu a um dos governos do Cavaco.
Não sei nem me interessa se esta alimária é ou não um reputado economista ou se tem ou não razão, neste caso, naquilo que escreve. Se calhar até tem.
Mas não consigo evitar enviar este aborto para a puta que o pariu mais o caralho que o foda.

Pronto, já disse.

E a minha verborreia:
Além de subscrever totalmente as palavras do Ukabdsinais, atrevo-me a dizer mais:

Na história muito recente deste povo que habita o planeta Terra, talvez não mais de há 50 anos para cá, o que alguns pensadores mais esclarecidos já tinham avisado antecipadamente está a acontecer a olhos vistos. Trata-se da apropriação das mentalidades por parte dos poderes internacionais, quer sejam financeiros, económicos ou políticos. Apropriação esta que, sendo subtil, inteligente, focando a sua matriz no mais humano dos sentimentos de querer o dia de amanhã melhor do que hoje, de forma concertada e organizada criam o desejo de consumir o inútil e desnecessário como um meio de vida, como um objectivo individual de satisfação virtual no caminho da almejada felicidade.
A pessoa deixou de ser humana, com diferentes formas de estar e escolhas diversas, para passar a ser um objecto puro do consumo, de viver em função das poderosas máquinas de marketing publicitário, não lhe podendo escapar a não ser que se assuma como marginal, como minoritário, como permanente lutador contra esses poderes instituídos, onde a regulação e as normas se impõem fortes, indestrutíveis perante o binómio custo/benefício.
Apenas alguns, poucos no meio dos mais de 6 biliões de seres vivos dos quais apenas 2 biliões vivem com mais de 2 dolares por dia, têm capacidade para compreender o que se passa, pois os acontecimentos e as trapaceiras são mais velozes do que o tempo necessário para entendê-las, daí a mais simples das formas encontradas pela maioria de se submeter, sem apelo nem agravo, à apatia, ao não vale a pena individual, ao encolher de ombros. Antigamente esta função, ao nível das mentes, era similarmente efectuada pelas religiões no mundo, embora ainda hajam vários cantos do mundo onde tal acontece. Actualmente, neste tempo moderno, os deuses passaram a ser os donos financeiros e económicos. Nos países ditos mais evoluídos, o deus passou a ser o poderoso humano que tem rosto, a religião passou a ser o mercado do consumo e a água benta tem o nome de dinheiro.
E nascem como tordos os arautos destes atributos, a quem lhes dão o acesso aos meios de comunicação para espalharem a sua fé, a maior parte das vezes de uma forma subtil, encapotada, até dando uma ideia de que são muito humanos e só querem o bem comum, utilizando toda a sua mente prevertida para, ora apregoando uma coisa ora bradando o inverso uns tempos mais tarde, confundir a maioria pouco esclarecida que, na sua pobre inteligência de pão-de-ló, se deixa embalar na cantiga do bandido.
É o caso, de entre muitos que por aí há, deste tal badamerda César das Neves, cujo passado de vida é suficiente para que não lhe possamos dar a mínima oportunidade de estar de acordo com ele, nem que ele afirme que a terra é redonda, o dia tem 24 horas, 2 mais 2 são 4 ou a Fabiana faz o melhor broche do mundo!
Qualquer verdade vinda de malandros assim é pura especulação demagógica. E até são professores!!!

Agradeço ao Timoneiro a atenção prestada por enviar o texto e ao Ukabdsinais por me ter espicaçado as entranhas para esta breve reflexão que convosco quero partilhar.

2º remador

Nota: Sugiro aos meus amigos a leitura do livro saído este ano do Fernando Pereira Marques, "Esboço de um programa para os trabalhos das novas gerações", título que o autor foi retirar a uma obra do Antero de Quental.

ÒH SANTA INFORMÁTICA!

Pois é. Passados vários meses em que não consegui meter aqui umas colheradas, eis que, òh deuses do Olimpo, finalmente parece que estes se apaziguaram e me permitiram voltar a vomitar nesta gloriosa folha as entranhas do meu sentir.
É evidente que vocês, os que têm a infelicidade de aqui vir parar, escusam de vociferar que isto estava tão bem sem as minhas parvoices, pois acabou esse estado de calma em que repousavam. E acreditem que a culpa não é minha, pois só com a inestimável ajuda do tripulante ukabdesinais tal é possível.
Mas tive que suar que nem um texugo para aqui chegar. Foram meses de árduas tentativas, seguindo as instruções que me eram dadas. Mas isto da informática é só para mentes superiores, e um réles ser como eu, não havia meio de o conseguir.
No meio de nomes de utilizador (username...muito fino, muito in, muito american..) e senhas (password.....mais uma fineza, muito informático, muito in, na onda da modernice, bué de yuppi american boy), de instruções de caminhos a seguir (tudo em american, como é apanágio do mundo informático global.....sim, esta é face mais visível da globalidade imperial da criação amerdicana) onde sempre faltava um pequeno senão, de vários computadores partidos em desespero, de sessões contínuas de terapia de grupo, depois de rever vezes sem conta o discurso do Hugo Chavez onde apregoa que vai alterar a hora oficial da Venezuela em menos meia hora, eis que consegui. Devia gritar "eureka", mas não, por respeito ao seu editor.
De facto isto da informática, mesmo o que parece mais simples, é para mentes superiores dotadas de uma inteligência magnânine. Mas com sacrifício parece-me que já consigo publicar aqui umas merdas de vez em quando.
Vamos a ver se a minha sanidade mental ainda o permite!

quarta-feira, novembro 21, 2007

Leituras ao serão

A avó Urzelina, que já perdeu a conta aos anos mas que se bate ainda com uma boa feijoada a seguir a hora e meia de jogging diário, que lê os artigos de opinião do Pacheco Pereira, que gaba a nova dentadura do Paulo Portas e não perde pitada dos discursos do ministro Mário Lino, e que ainda tem tempo para gravar todas as telenovelas da TVI enquanto vê as da SIC, perdeu de repente as estribeiras e desatou aos tiros pela casa fora com a caçadeira que o avô lhe deixara antes de se refugiar em Vladivostok. “Fónix!, como é que uma fulana consegue aguentar isto?”, berrava a avó enquanto despejava mais uns cartuxos na direcção do gato Romeu que fugiu para a cave. Fiquei ali na dúvida se haveria de chamar o 112 ou avisar a prima Ossétia que estava de serviço na travessa do Deboche como é costume, mas por sorte os cartuchos esgotaram-se e a avó Urzelina desatou a partir o serviço de porcelana chinesa que o Presidente lhe tinha oferecido com a coronha da caçadeira. Depois do serviço feito em cacos e a caçadeira partida, a avó sentou-se ofegante na cadeira de balanço, e pediu-me um havano e uma dose generosa de tequila para acalmar.
Chegada a bonança, e por entre novelos de fumo do charuto e goles de tequila, a avó lá se abriu comigo, coisa rara nos tempos que correm. “Tédio, meu filho, tédio, nada mais que tédio. Já não consigo divertir-me com o Mário Lino, nem com os dentes do Portas, nem com as intelectualices do Pacheco Pereira, as telenovelas já são todas cópias umas das outras, o jogging deixa-me cansada e a feijoada provoca-me gases. Tédio, é só tédio.” Confesso que nunca tinha visto a avó naquele estado, e embora tenha tentado animá-la aconselhando-a a mudar as directrizes do seu gosto pessoal, por exemplo, trocar o Mário Lino pelo Van Zeller, o Portas pelo Castelo Branco, o Pacheco pelo Pedro Arroja, o jogging pelo kick-boxing, a feijoada por crepes chineses, e as telenovelas pelo Marcelo, a avó Urzelina recusou e foi ficando cada vez mais deprimida a cada sugestão minha.
Eis senão quando entra por ali adentro o Elias, angariador de militantes partidários em part-time e agente-secreto do patriarcado, empurrando um carrinho de supermercado atulhado até acima de resmas de folhas A4. Deixou-se cair ofegante na única cadeira disponível e falou para a avó: “Trago aqui 63500 cópias de documentos do Ministério da Defesa. Não me façam perguntas que eu também não sei responder. Com os cumprimentos de PP.” E saiu tal como tinha entrado: pela porta.
Agora as coisas voltaram ao normal. A avó largou a depressão num canto escuro, e passa agora os dias a ler as cópias do Ministério. Por vezes eu e a prima Ossétia ficamos ao serão a ouvir a avó ler em voz alta documentos altamente confidenciais e entre compras de submarinos usados que só submergem, petrodólares por debaixo da mesa, férias de luxo no Dubai, negócios de armas e diamantes, e até orientações sexuais de alguns líderes mundiais, por vezes não conseguimos conter as gargalhadas e até o gato Romeu ostenta aquele ar misterioso sempre que o serão se prolonga. Até a prima Ossétia está mais caseira e já me olha com aquele olhar que me arrepelava os cabelos da nuca antes de trabalhar na rua do Deboche.

quarta-feira, novembro 14, 2007

Poesia para os distraídos

No primeiro diploma,
Congelam as progressões,
Acabam os escalões,
E não dizemos nada.

No segundo diploma,
Aumentam o tempo das reformas,
Mexem com todas as normas,
E não dizemos nada.

No terceiro diploma,
Alteram o sistema de saúde,
Há um controlo amiúde,
E não dizemos nada.

No quarto diploma,
Criam-se informações,
Geram-se várias divisões,
E não dizemos nada.

No quinto diploma,
Passa a haver segredo,
As pessoas vivem com medo,
E não dizemos nada.

Até que um dia,
O emprego já não é nosso,
Tiram-nos a carne fica o osso,
E já não podemos dizer nada.

Porque a luta não foi travada,
A revolta foi dominada,
E a garganta está amordaçada.

(de autor anónimo)

segunda-feira, novembro 12, 2007

Segundas-feiras

Às segundas-feiras acordava com a sensação do incompleto. Alguma coisa faltava para que este dia fosse tão feliz como o sábado ou o domingo, ou, porque não, as tardes de sexta-feira. Levantava-me com alguma dificuldade e sono adiado e dirigia-me rastejante à casa de banho. Invariávelmente o espelho devolvia a imagem de um ser distorcido, repelente, um verme esponjoso ou insecto quitinoso saído de alguma metamorfose de Kafka. Nem a higiene matinal, por muito que esfregasse, escovasse, rapasse ou lavasse, conseguia devolver a minha vulgar aparência humana. E acontecia sempre às segundas-feiras. Às segundas-feiras a comida não tinha gosto, os sapatos não tinham graxa, as calças não tinham vinco, as camisas não tinham goma, o telemóvel não tinha rede.
Ia para o trabalho sonolento, ao volante do meu Bentley em quinta mão, único sobrevivente de heranças passadas para além do gato empalhado do avô. Gramava uma hora e meia de fila de trânsito, tal qual um carreiro de formigas parado e sem destino visível até deparar com o formigueiro fruto de depressões e abusos de poder. Os outros vermes e insectos (às segundas-feiras não era o único, felizmente) lá se distribuíam pelos buracos, ninhos, colmeias e até folhas de couve apodrecidas.
Mas o pior era aturar o Escorpião. O bicho tinha um feitio terrível, dava-se de ares e ameaçava tudo e todos com uma ferroada certeira. Por causa dele a Umbelina estava em estado vegetativo há dois meses, o Aniceto uivava à lua e o Remualdo afiava a faca de cozinha na pedra de amolar com o olhar assassino cortado pelas fagulhas, jurando vingança. De quê não sei.

Foi assim até ao dia do discurso. Por acaso a uma segunda-feira. O Presidente falou, e falou, e falou sem parar durante dezoito horas seguidas, e ao culminar as dezassete horas e cinquenta e nove minutos o Escorpião suicidou-se, autoferroando-se. De imediato a Umbelina passou de vegetal a animal, o Aniceto largou a atitude canina, o Remualdo guardou a faca de cozinha. Todos os seres repelentes entre os quais eu me incluía voltaram a ser os vulgares humanos de todos os dias excepto às segundas-feiras. O Presidente foi reeleito e com direito a estátua na Avenida Principal. O seu 1º decreto foi para revogar oficialmente as segundas-feiras do calendário.
Não sei porquê, mas agora tenho a sensação de que todos os dias são segunda-feira...

sexta-feira, novembro 09, 2007

Uma vida saudável

O Timoneiro apresenta mais um estudo altamente científico sobre as dificuldades de uma vida totalmente saudável. Não se sabe quem é o autor, mas é pouco provável que ele leia este blog, portanto...

Dizem que todos os dias temos que comer uma maçã para o ferro e uma banana para o potássio.

Também uma laranja, para a vitamina C, meio melão para melhorar a digestão e uma chávena de chá verde sem açúcar para prevenir a diabetes.Todos os dias temos que beber dois litros de água (sim, e logo a seguir mijá-los, que leva quase o dobro do tempo que se leva a beber).

Todos os dias temos que tomar um Activia ou um iogurte para ter 'L. Cassei Defensis', que ninguém sabe exactamente que merda é, mas parece que se ingerir um milhão e meio todos os dias começa-se a ver toda a gente com uma grande diarreia ou presos dos intestinos.

Cada dia uma aspirina, para prevenir os enfartes mais um copo de vinho tinto, para a mesma coisa. E outro de vinho branco, para o sistema nervoso. E um de cerveja, que já não me lembro para que era.

Se os tomarmos todos juntos mesmo que aconteça um derrame cerebral ali mesmo não nos
devemos preocupar pois o mais certo é que nem daremos conta disso.

Todos os dias temos que comer fibras. Muita, muitíssima fibra até que sejamos capazes de defecar uma camisolona bem grossa.

Temos que fazer quatro a seis refeições diárias leves sem esquecer de mastigar cem vezes cada garfada.

Ora, fazendo um pequeno cálculo apenas a comer vão-se assim de repente umas cinco horitas.Ah, depois de cada refeição deve-se escovar bem os dentes, ou seja:

depois do Activia e da fibra os dentes depois da maçã os dentes depois da banana os dentes e assim enquanto tivermos dentes, sem esquecer nunca de passar o fio dental massajador das gengivas e bochechar com PLAX...
Melhor, amplifica-se a casa de banho e põe-se a aparelhagem de música lá porque entre a água, a fibra, e os dentes vamos passar horas ali dentro, ou seja, quase metade do dia.
Equipa-se também de jornais e revistas para nos pormos a par do que se passa enquanto sentados na sanita.

Se temos que dormir oito horas e trabalhar outras oito, mais as cinco que usamos a comer, faz vinte e uma.
Restam três horas sempre que não surja algum imprevisto.
Segundo as estatísticas, vemos três horas de televisão diárias.
Bem, já não se pode porque todos os dias devemos caminhar pelo menos uma meia hora (dado por experiência: ao fim de 15 minutos é melhor para senão anda-se mas é uma hora!).
E há que cuidar das amizades porque são como uma planta: temos que as regar diariamente.
E quando vamos de férias também senão as plantas morrem.
Para além disso há que estar bem informado e ler pelo menos um dos jornais diários e outro de uma revista séria para comparar a informação.

Ah! E temos que ter sexo todos os dias mas sem caír na rotina: temos que ser inovadores, criativos, renovar a sedução.
Isso leva o seu tempo. E já nem estamos a falar do sexo tântrico!! ( A respeito disso, relembro: depois de cada refeição temos que escovar os dentes!)
Também temos que arranjar tempo para a maquilhagem, a depilação/fazer a barba, varrer a casa, lavar a roupa, lavar os pratos e já nem digo, os que têm gatos, cães pássaros e uma catrefada de filhos...

No total, a mim dá-me umas 29 horas diárias se nunca parar.
A única possibilidade que me ocorre é fazer várias destas coisas ao mesmo tempo: por exemplo, tomar duche com água fria e com a boca aberta, e assim beber logo os dois litros de água de uma vez.
Enquanto saímos do banho com a escova de dentes na boca, vamos fazendo o amor, o sexo tântrico, parado, junto ao nossa/o mais que tudo, que de passagem vê TV e vai contando o que se passa, enquanto varremos a casa.
Sobrou uma mão livre?
Telefona-se aos amigos e aos pais!
Bebe-se o vinho (depois de telefonar aos pais vai fazer falta!).
O iogurte com a maçã pode ser dado pelo par enquanto come a banana com a Activia.
No dia seguinte troquem.
E menos mal que já crescemos, porque senão tínhamos que engolir mais umas cerelacs e um Danoninho Extra Cálcio todos os santos dias.
Úuuuf!

E agora vou acabar porque entre o iogurte, o meio melão o primeiro litro de água e a terceira refeição do dia já não faço a mínima ideia o que é que estou a fazer porque preciso urgentemente de uma casa de banho.
Ah, vou aproveitar e levo comigo a escova de dentes...